A quebra da patente da semaglutida, em março, gerou expectativas sobre alternativas mais acessíveis às canetas antiobesidade, como Ozempic e Wegovy. No entanto, os efeitos desses medicamentos na perda de peso não são uniformes, com evidências indicando que um em cada dez pacientes não alcança o peso desejado nos primeiros meses de uso.
No ensaio clínico STEP 1, publicado em 2021, cerca de 14% dos participantes tratados com semaglutida não conseguiram perder ao menos 5% do peso corporal. O estudo SURMOUNT-1, que analisou a tirzepatida (Mounjaro), revelou uma taxa de não resposta de 9,1% entre os que receberam a dose de 15 mg.
O endocrinologista Paulo Rosenbaum destaca que a resposta ao tratamento varia de pessoa para pessoa.
A gente pode dizer que 5% a 10% dos pacientes não têm uma boa resposta a esse tipo de tratamento
, afirma. A resposta também depende do ajuste progressivo da dose, que visa reduzir efeitos colaterais e melhorar a tolerância.
Os fatores que contribuem para a falta de resposta ao tratamento são diversos. Pacientes com diabetes, por exemplo, costumam ter uma resposta menos eficaz em relação à perda de peso. Um estudo de 2024 analisou dados de 4.467 adultos com diabetes tipo 2 e constatou que apenas 14% conseguiram melhorar o controle glicêmico e perder ao menos 5% do peso.
A dose do medicamento é outro aspecto crucial. Um ensaio de 2025 mostrou que a semaglutida de 7,2 mg foi mais eficaz do que a de 2,4 mg na redução do peso corporal em adultos com obesidade. Após 72 semanas, a perda média foi de 18,7% com a dose mais alta, em comparação a 15,6% com a dose padrão.
Além disso, a farmacocinética, ou a forma como o corpo metaboliza o medicamento, também desempenha um papel importante. Um estudo de 2021 indicou que a resposta à semaglutida depende dos níveis da droga no sangue, e não da via de administração.
Outros medicamentos que promovem ganho de peso podem interferir na eficácia dos tratamentos com semaglutida e tirzepatida. As diretrizes da Sociedade de Endocrinologia recomendam a reavaliação de tais fármacos e a busca por alternativas que não contribuam para o aumento de peso.
A variabilidade na resposta ao tratamento pode ter um componente genético. Um estudo recente identificou uma variante no gene do receptor de GLP-1 que está associada a uma maior eficácia do tratamento, além de estar ligada a efeitos colaterais como náuseas.
Quando o tratamento não resulta na perda de peso esperada, é essencial revisar a abordagem terapêutica. A Sociedade de Endocrinologia sugere verificar se a dose foi ajustada corretamente e se o uso do medicamento foi contínuo.
Fatores como dieta, consumo de álcool, qualidade do sono e estresse também devem ser considerados. A resposta ao tratamento pode ser influenciada por fatores emocionais que levam ao consumo alimentar.
Em tratamentos com custos elevados, como semaglutida e tirzepatida, a eficácia do tratamento é um fator crucial para a análise de custo-efetividade. Países como o Reino Unido e o Canadá adotaram critérios rigorosos para a indicação e financiamento dessas terapias.
No Brasil, a proposta de incorporar esses medicamentos ao Sistema Único de Saúde foi rejeitada devido ao alto impacto orçamentário. Contudo, a discussão continua, e a Novo Nordisk anunciou um programa piloto para oferecer o Wegovy na rede pública.
Rosenbaum ressalta que a variação na resposta ao tratamento é uma realidade tanto no setor público quanto no privado, tornando fundamental o alinhamento de expectativas e o acompanhamento médico durante o uso dos medicamentos.