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Curso de Gestão Emocional para Médicos é Desenvolvido por Pesquisadores

*O artigo foi escrito pelo professor adjunto de medicina Marcelo Bueno da Silva Rivas, da UERJ e Unicamp, e publicado na plataforma The Conversation Brasil. A formação médica é uma jornada repleta de emoções. Durante.....
Foto: Metropoles

*O artigo foi escrito pelo professor adjunto de medicina Marcelo Bueno da Silva Rivas, da UERJ e Unicamp, e publicado na plataforma The Conversation Brasil. A formação médica é uma jornada repleta de emoções. Durante o percurso, os estudantes se deparam com a complexidade emocional oriunda dos efeitos que o processo de adoecimento e cura pode exercer sobre os pacientes. Esse processo ocorre simultaneamente ao desenvolvimento pessoal e profissional do estudante, que busca mecanismos para se adaptar a essa realidade emocional complexa. Pesquisas mostram que cerca 25% a 30% dos estudantes de medicina apresentam sintomas depressivos. E o índice de burnout entre médicos ultrapassa 50%. Esses dados, derivados de metanálises com ampla base amostral, evidenciam um padrão consistente de sofrimento psíquico elevado ao longo da formação médica, com implicações diretas para o desempenho acadêmico, a identidade profissional e a prática clínica futura. Embora o currículo médico inclua disciplinas como ética e psicologia, o espaço formal destinado a preparar futuros profissionais para reconhecer e manejar as próprias emoções permanece limitado. Paralelamente, existe um “currículo oculto”. Um conjunto de normas, valores e atitudes transmitidos informalmente no ambiente acadêmico, muitas vezes em contradição com os princípios do currículo formal. Nele, aprende-se que o bom médico deve ser frio e distante. Alguém que não demonstra emoções. Essa noção é sustentada pela observação do comportamento de professores e supervisores que, frequentemente, demonstram uma postura de desestímulo à expressão de sentimentos. Assim, o jovem que ingressou no curso com a vontade genuína de cuidar, pouco a pouco se desconecta das suas emoções. Emoções podem qualificar médicos Faço parte de um grupo que discorda dessa visão. Nós acreditamos que as emoções podem qualificar o médico. Se a prática médica é, inevitavelmente, composta por emoções, suprimi-las não as elimina. Apenas as torna silenciosas e à margem de qualquer elaboração. A pergunta, portanto, não é se a medicina deve ou não lidar com emoções, mas como promover o desenvolvimento emocional. Diversos autores já demonstraram que o desenvolvimento emocional dos estudantes de medicina pode aprimorar a tomada de decisão clínica e promover o bem-estar de médicos e pacientes. Entretanto, não existe um arcabouço teórico definitivo sobre como promover esse desenvolvimento emocional. Recentes estudos indicam um potencial promissor para fomentar o desenvolvimento emocional por meio do emprego de atividades pedagógicas baseadas em arte, incluindo a música. A música tem sido amplamente reconhecida como uma ferramenta poderosa no campo educacional. Ouvir música ativa a plasticidade cerebral por meio do estímulo de circuitos neuronais que ampliam a cognição e favorecem a percepção emocional. A integração entre emoção e cognição possibilita um processo reflexivo mais profundo para o estudante. Além disso, expande sua capacidade de lidar com a ambiguidade e, desta forma, promove o desenvolvimento do pensamento crítico. Essa expansão da cognição, também amplia a experiência educativa, tornando-a mais dinâmica e repleta de significados. Emoções em medicina Foi nesse contexto que nosso grupo, composto por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Unicamp e da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), em colaboração com a Universidade de Groningen, na Holanda, desenvolveu o curso “Emoções em Medicina”. A proposta foi simples e, ao mesmo tempo, inovadora. A ideia foi utilizar uma atividade pedagógica baseada em música para promover reconhecimento, expressão e regulação das emoções. Durante quatro semanas, 124 estudantes participaram de encontros em que escutaram e analisaram canções de artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Criolo, Coldplay e Pink Floyd. A partir da reflexão sobre letras, ritmos e melodias, foram convidados a identificar emoções evocadas pelas músicas. E mais, o convite se estendeu para que estabelecessem paralelos com situações vividas na prática clínica. O ambiente era estruturado para garantir segurança psicológica e permitir que experiências pessoais e profissionais fossem compartilhadas sem julgamento. Além da reflexão, os participantes praticaram estratégias de regulação emocional, que são habilidades associadas à capacidade de reconhecer, compreender e modular emoções diante de situações estressantes. Para analisar o impacto desta atividade pedagógica sobre o desenvolvimento emocional dos estudantes de medicina, realizamos um estudo prospectivo multicêntrico. Utilizamos uma metodologia quantitativa para comparação dos níveis de inteligência emocional dos estudantes antes e depois da atividade. Em seguida, realizamos um segundo estudo. Por meio de uma metodologia qualitativa, fizemos uma análise temática reflexiva e indutiva. O objetivo foi explorar como a atividade pedagógica baseada nos conceitos de regulação emocional e música influenciou o desenvolvimento emocional de estudantes de medicina. O reencontro com o propósito de cuidar Ao final da pesquisa, observamos melhora significativa nos indicadores de inteligência emocional dos participantes. Nas entrevistas qualitativas, os estudantes relataram que a experiência favoreceu conexões interpessoais, naturalizou a presença de emoções na prática médica e, para muitos, representou um reencontro com o propósito original de cuidar. Ao encorajar os estudantes a perceberem, expressarem e regularem suas emoções, a atividade se contrapôs à supressão emocional prescrita pelo currículo oculto. A música tem sido utilizada em hospitais como recurso terapêutico para pacientes. Entretanto, talvez seja hora de reconhecer que médicos também necessitam de instrumentos para compreender e elaborar suas próprias emoções. Não se trata de substituir o rigor técnico ou a racionalidade clínica, mas de ampliar a formação. E incluir competências emocionais que sustentam decisões complexas, habilidades de comunicação e cuidado compassivo. Ao oferecer aos estudantes um espaço para explorar, ressignificar e acolher suas emoções por meio de uma atividade que une música e regulação emocional, proporcionamos um caminho inovador. Nele, integramos razão e emoção. Diante de indicadores crescentes de sofrimento psíquico na formação médica, investir no desenvolvimento emocional pode ser uma estratégia de sustentabilidade profissional. Preparar médicos tecnicamente competentes é essencial. Capacitá-los também para lidar com as emoções inerentes ao cuidado pode ser decisivo para preservar tanto a qualidade da assistência quanto a saúde de quem cuida. Receba notícias de Saúde e Ciência no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal de notícias do Metrópoles no WhatsApp. Para ficar por dentro de tudo sobre ciência e nutrição, veja todas as reportagens de Saúde.

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