A Anvisa aprovou recentemente o Mounjaro (tirzepatida) para o tratamento de diabetes tipo 2 em pacientes com idades entre 10 e 17 anos. O medicamento, que já era utilizado por adultos para tratar diabetes, obesidade e apneia do sono, agora se torna uma opção para o público jovem.
Um estudo da Federação Internacional de Diabetes, publicado em 2021, estimou que 1,1 milhão de adolescentes entre 14 e 19 anos convivem com diabetes tipo 2. No Brasil, uma pesquisa de 2019 indicou que aproximadamente 213 mil adolescentes enfrentam essa condição.
De acordo com a Lilly do Brasil, fabricante do Mounjaro, a aprovação foi fundamentada em um estudo clínico publicado em setembro de 2025 na revista The Lancet. O ensaio, que envolveu jovens de 10 a 17 anos, demonstrou uma redução média de 2,2 pontos percentuais na hemoglobina glicada ao longo de 30 semanas. Os efeitos adversos mais comuns relatados foram sintomas gastrointestinais, como náusea e diarreia, com baixas taxas de descontinuação.
Além do Mounjaro, outros medicamentos já aprovados para o tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes incluem Victoza e Lirux (liraglutida), a partir dos 10 anos, e Saxenda, Olire, Wegovy e Poviztra (semaglutida), a partir dos 12 anos.
Dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados revelam que, em janeiro de 2026, foram vendidas 3.385 caixas de medicamentos análogos de GLP-1 para crianças e adolescentes até 18 anos. Embora esse número seja pequeno em comparação com a venda total de 443.815 caixas, indica o acesso limitado a esses tratamentos.
A mesma base de dados mostra que 2.542 caixas desses medicamentos foram vendidas fora da faixa etária recomendada, incluindo 1.240 caixas do Mounjaro para menores de 18 anos.
O diagnóstico de diabetes tipo 2 em jovens está frequentemente associado à obesidade infantil, que afeta 38% da população brasileira entre 5 e 19 anos, segundo a Federação Mundial de Obesidade. Contudo, a nova aprovação do Mounjaro é restrita ao tratamento do diabetes tipo 2, e seu uso para controle de peso em menores de 18 anos não é indicado na bula.
Fábio Trujillo, presidente da Abeso, destaca que a prescrição off-label para crianças menores de 12 anos deve ser feita com cautela e em situações específicas, devido à escassez de evidências científicas.
Ele alerta que a automedicação pode acarretar riscos, incluindo problemas gastrointestinais e desnutrição, que podem afetar o crescimento. Além disso, há preocupações sobre como esses medicamentos podem impactar a digestão de nutrientes e a produção hormonal, potencialmente desregulando a menstruação e a ovulação.
Trujillo enfatiza a importância de um acompanhamento multidisciplinar no tratamento, envolvendo médicos, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos, para garantir a saúde e o desenvolvimento adequado das crianças e adolescentes.