Em meio aos impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia, o governo indiano intensificou um apelo à austeridade. A população foi orientada a reduzir o consumo de combustível, limitar a compra de ouro, evitar viagens internacionais e adotar o trabalho remoto sempre que possível.
Essa mudança de postura, promovida pelo primeiro-ministro Narendra Modi, reflete a crescente pressão sobre a economia do país, que é fortemente dependente de importações de energia. A Índia importa cerca de 90% do petróleo que consome e é um dos maiores importadores globais de ouro, o que a torna vulnerável em tempos de instabilidade externa.
A atual crise, provocada pela guerra envolvendo o Irã e o bloqueio do estreito de Ormuz, elevou os custos energéticos e agravou o desequilíbrio nas contas externas. Como resultado, empresas estatais aumentaram os preços da gasolina e do diesel pela primeira vez desde o início da crise, impactando diretamente o cotidiano da população e gerando preocupações com a inflação.
O estreito de Ormuz, que é crucial para as importações de petróleo da Índia, tem enfrentado interrupções desde o início do conflito, com cerca de metade das importações do país passando por essa rota. Sem alternativas imediatas, o governo busca reduzir a demanda interna para aliviar a pressão sobre as reservas em moeda estrangeira.
O ouro, que em 2025 custou mais de US$ 72 bilhões em importações, é um fator importante nesse cenário. Para conter a saída de dólares, o governo elevou a taxa de importação do ouro de 6% para 15%, visando desestimular a compra do metal.
A resposta da população às medidas tem sido mista. Em cidades como Calcutá, muitos moradores expressam confusão sobre o alcance das orientações. Enquanto alguns afirmam que já adotam um padrão de consumo restrito, outros questionam a falta de explicações mais detalhadas sobre as estratégias do governo.
Críticas também surgem em relação ao momento do anúncio, feito logo após as eleições gerais. Para muitos, o discurso do primeiro-ministro carece de medidas práticas que demonstrem como o país lidará com o aumento prolongado dos custos de energia e a pressão cambial. No entanto, há quem veja o pedido de austeridade como uma medida preventiva diante de um cenário internacional incerto.
Paralelamente, o governo busca fortalecer sua estratégia diplomática. Modi iniciou uma viagem aos Emirados Árabes Unidos e países europeus, com a segurança energética como tema central. Ao chegar a Abu Dhabi, destacou a importância de manter o estreito de Ormuz aberto, em conformidade com o direito internacional.
As conversas com autoridades dos Emirados devem incluir acordos nas áreas de petróleo e gás, além de investimentos. O governo indiano espera que parcerias estratégicas ajudem a reduzir a dependência de rotas vulneráveis e ampliem a resiliência energética.
Esse esforço reflete uma mudança mais ampla na política econômica do país. A combinação de preços elevados de energia, pressão sobre a moeda e reservas cambiais em queda exige um equilíbrio entre crescimento e estabilidade. Contudo, a reação nas ruas indica que o desafio vai além de orientar o consumo, com parte da população cética quanto à eficácia das medidas propostas.
Com o crescimento econômico ainda robusto, mas pressionado por fatores externos, a Índia busca evitar um descompasso mais profundo. A estratégia envolve diversificar fornecedores, controlar gastos e reduzir a dependência de energia importada, objetivos que dependem da adesão da população às medidas propostas.