O governo dos Estados Unidos decidiu classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. A medida, que entra em vigor em 5 de junho, gera preocupações entre especialistas sobre suas implicações para a soberania do Brasil e o impacto econômico em empresas brasileiras.
De acordo com os especialistas, essa classificação pode aumentar a capacidade de atuação de órgãos americanos, como o Pentágono e a CIA, permitindo operações mais diretas e a destinação de recursos de forma unilateral. Além disso, há receios de que essa designação possa prejudicar a cooperação entre as agências de segurança dos dois países.
Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência, destacou que a medida não deve afetar as facções, que continuarão suas atividades. Ele mencionou que já existem protocolos de troca de informações entre a Polícia Federal e o FBI, mas a nova classificação pode dificultar essa colaboração.
Vladimir Aras, professor de direito internacional da Universidade de Brasília, afirmou que rotular grupos como terroristas não necessariamente altera a situação real, citando o exemplo do Talibã no Afeganistão. Para ele, a designação pode não ter efeito prático sobre o PCC e o CV.
Oliver Stuenkel, analista de relações internacionais, alertou que a classificação pode impactar empresas e instituições financeiras brasileiras, uma vez que permite a aplicação de sanções financeiras mais severas. Ele ressaltou que a insegurança jurídica pode afastar investidores.
Roberto Uchoa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, acrescentou que a decisão pode colocar setores da economia brasileira sob pressão, especialmente o sistema financeiro e o setor de combustíveis, que podem ser alvo de sanções.
A designação de PCC e CV como organizações terroristas também pode justificar ações mais diretas dos EUA no Brasil, segundo os especialistas. Feliciano Guimarães, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, explicou que isso proporciona ao Departamento de Estado e ao FBI mais instrumentos legais para investigar e punir possíveis conexões com essas facções.
Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, observou que essa medida atende a uma promessa de campanha de Donald Trump, que buscava classificar grupos latino-americanos como terroristas. Ele destacou que essa retórica pode legitimar ações de violência estatal em nome do combate ao crime organizado.