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Desinformação sobre Micropênis em Crianças e Uso de Testosterona

Vídeos nas redes sociais sobre uma suposta epidemia de micropênis em meninos geram confusão e desinformação, levando pais a temerem por diagnósticos errôneos e tratamentos inadequados.
Foto: Notícias ao Minuto Brasil

Nos últimos meses, a circulação de vídeos nas redes sociais sobre uma alegada "epidemia de micropênis" em meninos tem gerado desinformação. Muitas dessas publicações, que alcançaram até 600 mil compartilhamentos, sugerem o uso precoce de testosterona como solução. Especialistas alertam que essa avalanche de informações pode induzir pais e responsáveis a acreditar que essa condição é comum, levando a diagnósticos e tratamentos inadequados.

O urologista Leonardo Borges, do Einstein Hospital Israelita, esclarece que o micropênis é um diagnóstico médico objetivo, não uma mera impressão visual. Trata-se de uma condição rara, afetando cerca de 0,06% dos meninos, e seu diagnóstico deve ser baseado em medições padronizadas do comprimento peniano, levando em conta curvas de referência para idade e estágio puberal.

Não basta parecer pequeno. É preciso medir corretamente e interpretar no contexto clínico

, enfatiza.

O crescimento do pênis ocorre em fases específicas, como no período intrauterino, nos primeiros meses de vida e durante a puberdade, geralmente a partir dos 12 ou 13 anos. O urologista adverte que avaliar uma criança em um único momento e concluir apressadamente que há uma doença é um erro.

Na prática, muitos meninos que são levados ao médico com suspeitas de micropênis não apresentam a condição. Muitas vezes, o que se observa é apenas uma variação anatômica normal ou situações que criam uma falsa impressão, como o pênis oculto pela gordura suprapúbica, comum em crianças com sobrepeso.

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) revelou que, durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, 48% dos pais consideravam o tamanho do pênis de seus filhos normal, enquanto 24% acreditavam que estava abaixo da média. No entanto, as medições realizadas pelos médicos mostraram que os responsáveis subestimavam o comprimento em cerca de 2,5 a 3 centímetros, e nenhuma das crianças examinadas apresentava micropênis.

A urologista pediátrica Veridiana Andrioli, coordenadora do departamento de Urologia Pediátrica da SBU, explica que existem variações anatômicas que podem dar a impressão de um pênis pequeno, como o pênis "enterrado" ou o pênis em faixa ventral. Ela recomenda que os pais busquem orientação médica ao perceberem algo fora do normal, pois muitas vezes uma explicação sobre o desenvolvimento pode trazer tranquilidade.

O micropênis é definido como um pênis que está a dois desvios-padrão abaixo da média do tamanho peniano na população. O urologista pediátrico Ubirajara Barroso Junior destaca que essa medição deve ser realizada apenas por profissionais especializados. Além disso, alegações sobre a "epidemia de micropênis" serem causadas por fatores ambientais não têm respaldo científico, já que o tamanho do pênis se mantém estável ao longo do tempo.

O uso de testosterona é indicado apenas em casos confirmados de micropênis ou deficiência hormonal, após avaliação médica. O uso inadequado pode acarretar riscos, como alterações precoces da puberdade e impactos no crescimento. Borges alerta que simplificar o tratamento de micropênis é um erro, e a medicina deve ser pautada por diagnósticos precisos, especialmente quando se trata de crianças.

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