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Atendimentos a mulheres vítimas de violência superam 900 por dia em 2025

Em 2025, mais de 900 mulheres foram atendidas diariamente em unidades de saúde no Brasil devido à violência, totalizando 330 mil registros. A maioria das vítimas é negra e entre 20 e 49 anos.
Foto: Notícias ao Minuto Brasil

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) indicam que, no ano passado, ao menos 900 meninas e mulheres foram atendidas diariamente em unidades de saúde em todo o Brasil por serem vítimas de violência. O total de registros alcançou 330 mil.

Os profissionais de saúde têm a obrigação legal de notificar todos os atendimentos relacionados à violência interpessoal, que envolve o uso intencional de força ou poder. Essa regra se aplica também a homens e grupos minoritários, como pessoas com deficiência e LGBTQIA+.

Entre 2015 e 2025, 71% das notificações de violência interpessoal foram de mulheres, abrangendo violência física, psicológica e sexual. No total, foram identificados 2,3 milhões de casos em unidades de saúde públicas e privadas.

O perfil das vítimas é majoritariamente de mulheres entre 20 e 49 anos, negras (pardas e pretas), que não completaram o ensino médio e foram agredidas por parceiros ou ex-parceiros íntimos em suas residências. Muitas já haviam recebido atendimento médico anteriormente devido à violência.

Esses dados contrastam com as informações divulgadas pela segurança pública, que se baseiam em boletins de ocorrência. Nos atendimentos médicos, as mulheres adultas não são obrigadas a denunciar a violência, embora frequentemente relatem aos profissionais de saúde.

A pesquisadora Camila Alves, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, explica que o aumento nas notificações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não necessariamente indica um crescimento nos casos, mas sim uma melhoria na captação de informações pelos profissionais de saúde.

As notificações nas unidades de saúde coincidem com o perfil das vítimas de feminicídio. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que, entre 2015 e 2025, as vítimas desse crime eram predominantemente adultas, entre 30 e 49 anos, negras e agredidas por parceiros íntimos.

A violência não é um evento isolado. A violência por parceiro íntimo, muitas vezes, é sequencial. Isso pode ter uma escalada em termos de gravidade. Começa com a violência psicológica, mas pode evoluir até mesmo para a morte

, afirma Deborah Carvalho Malta, professora da UFMG.

Cinquenta e três por cento das mulheres que buscaram atendimento médico por violência nos últimos dez anos já haviam sido atendidas anteriormente pelo mesmo motivo. Essa porcentagem não inclui a subnotificação.

Dados preliminares de uma análise em andamento indicam que uma parte significativa das mulheres com múltiplas notificações de violência teve os casos encerrados em óbito.

O objetivo do sistema de saúde é prevenir que a violência resulte em feminicídio. Há 25 anos, o Ministério da Saúde reconheceu a violência como um problema de saúde pública, estabelecendo que o setor deve monitorar casos e capacitar profissionais.

Quando um profissional identifica uma situação de violência, a notificação ativa uma rede de proteção, incluindo encaminhamentos para assistência social e medidas protetivas. A informação não é repassada automaticamente à polícia, garantindo que a mulher tenha autonomia para decidir.

O sistema de saúde também abrange casos que raramente chegam à delegacia, como violência psicológica e patrimonial. A saúde é vista como uma porta de entrada, onde muitas mulheres se sentem mais acolhidas.

Médicos podem identificar históricos de violência que não são relatados, como queixas de dor pélvica crônica e vaginismo, que frequentemente estão associados a abusos.

Entretanto, existem lacunas estruturais no atendimento. Apenas cerca de 40 hospitais públicos no Brasil estão preparados para atender vítimas de violência sexual com protocolos adequados.

Os efeitos da violência se estendem além do momento da agressão, com vítimas na infância enfrentando consequências psicológicas e físicas ao longo da vida. Muitas retornam ao sistema de saúde devido a essas sequelas.

Um estudo publicado na revista The Lancet em 2025 destacou que a violência por parceiro íntimo é o quarto maior fator de risco de morte prematura e invalidez entre mulheres de 15 a 49 anos no mundo, ocupando o terceiro lugar no Brasil.

A complexidade da violência contra a mulher exige uma abordagem intersetorial, considerando questões culturais e estruturais. A desigualdade social é um fator que perpetua essa situação.

O projeto Saúde Pública conta com o apoio da Umane, uma associação civil que visa promover a saúde.

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