Recentes surtos, como o de ebola na República Democrática do Congo e o hantavírus em um navio de cruzeiro, levantaram a questão sobre o tempo que a ciência levaria para desenvolver uma vacina em uma nova pandemia. O prazo pode variar de cinco a dez anos em condições normais, mas em emergências sanitárias, esse tempo pode ser reduzido para um a dois anos, dependendo do vírus e da tecnologia disponível.
O processo de desenvolvimento de uma vacina começa antes dos testes em humanos. Os pesquisadores precisam entender o funcionamento do vírus e identificar qual parte pode ser neutralizada pelo sistema imunológico. Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, explica que é necessário compreender o ciclo da doença para definir o antígeno e a plataforma adequada, como vírus atenuado ou RNA mensageiro.
Após a fase laboratorial, são realizados testes pré-clínicos em animais para avaliar segurança e resposta imunológica. Somente então a vacina avança para as três fases de estudos clínicos em humanos. A fase 1 envolve um pequeno grupo de voluntários para avaliar segurança e dose. Na fase 2, o número de participantes aumenta e a eficácia é analisada. A fase 3 reúne milhares de pessoas e exige um acompanhamento prolongado para confirmar a proteção e possíveis efeitos adversos.
Mayra ressalta que o processo é demorado, pois cada etapa depende do sucesso da anterior. Protocolos éticos e avaliações regulatórias, como as realizadas pela Anvisa, podem levar meses antes da aprovação final.
Durante a pandemia de Covid-19, o desenvolvimento das vacinas ocorreu em tempo recorde, gerando dúvidas sobre a segurança dos imunizantes. No entanto, especialistas garantem que nenhuma etapa foi pulada. Jonas Lotufo Brant, professor da Universidade de Brasília, explica que a velocidade foi possível devido a pesquisas anteriores sobre coronavírus e a mobilização internacional sem precedentes, com colaboração entre governos, universidades e laboratórios.
Nem todos os vírus permitem uma resposta rápida. Doenças como hantavírus apresentam desafios, pois os surtos são pequenos e esporádicos, dificultando os testes de vacinas. O ebola também enfrentou dificuldades até o grande surto na África Ocidental entre 2014 e 2016, que acelerou os testes de vacinas em desenvolvimento.
A capacidade de detectar rapidamente novas doenças é crucial. Quanto mais cedo um surto é identificado, maiores são as chances de conter a transmissão. Brant destaca que a vigilância epidemiológica e a tecnologia de vacinas são legados importantes da Covid-19, mas o mundo ainda é vulnerável a novas epidemias, especialmente em regiões com infraestrutura sanitária precária.
Fortalecer sistemas de vigilância e investir em pesquisa científica são essenciais para uma resposta global e rápida a futuras ameaças à saúde.