Tradicionalmente, o câncer é associado a hábitos de vida e fatores ambientais. Contudo, um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health destaca que, para uma parte significativa dos pacientes, o risco de desenvolver a doença pode ter origem no DNA herdado da família. A pesquisa analisou amostras genéticas de 275 brasileiros com câncer e descobriu que aproximadamente 10% deles carregam mutações genéticas hereditárias relacionadas ao câncer.
Os cientistas utilizaram técnicas de sequenciamento genético para identificar variantes herdadas que aumentam a predisposição ao surgimento de tumores. Mutações patogênicas foram encontradas em genes conhecidos, como BRCA1, BRCA2 e TP53, que estão associados a cânceres de mama, ovário, próstata e intestino. Os resultados indicam que essas alterações hereditárias são mais comuns do que se pensava e impactam diretamente a evolução da doença.
As mutações hereditárias, ao contrário das adquiridas ao longo da vida, estão presentes desde o nascimento e podem ser transmitidas entre gerações. Elas afetam os mecanismos naturais do corpo que corrigem falhas no DNA, aumentando a probabilidade de multiplicação descontrolada de células danificadas, resultando em câncer. Assim, indivíduos com histórico familiar da doença, especialmente em idades mais jovens, podem apresentar risco elevado.
Identificar uma mutação hereditária pode mudar radicalmente o acompanhamento médico de um paciente, influenciando decisões terapêuticas e permitindo tratamentos mais personalizados. O diagnóstico genético possibilita antecipar exames de rastreamento, intensificar a vigilância clínica, orientar medidas de prevenção e avaliar o risco em parentes de primeiro grau.
Apesar dos avanços, os pesquisadores ressaltam que o acesso a testes genéticos no Brasil ainda é restrito, resultando em muitos casos de predisposição hereditária não identificados. A ampliação do acesso a essas ferramentas pode levar a diagnósticos mais precoces e estratégias de prevenção mais eficazes. Embora a genética desempenhe um papel importante, a maioria dos casos de câncer ainda está ligada a fatores como alimentação, sedentarismo, tabagismo e envelhecimento.
O estudo enfatiza que compreender o histórico familiar e investigar o DNA, quando necessário, pode impactar o risco e o desfecho da doença. Na medicina personalizada, a genética se torna uma ferramenta concreta para antecipar riscos e potencialmente salvar vidas.