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Nova Estratégia de Segurança dos EUA para 2026 e a Doutrina Monroe

A nova Estratégia Nacional de Contraterrorismo dos EUA para 2026 reposiciona a América Latina como prioridade de segurança, resgatando princípios da Doutrina Monroe e ampliando o conceito de terrorismo.
Foto: Metropoles

A recente divulgação da Estratégia Nacional de Contraterrorismo para 2026 pela Casa Branca sinaliza uma mudança significativa na política de segurança dos Estados Unidos sob o segundo mandato de Donald Trump. O documento estabelece o Hemisfério Ocidental como uma prioridade crucial para a segurança nacional, reintroduzindo os princípios da histórica Doutrina Monroe.

O Corolário Roosevelt, que surgiu em 1904 como uma extensão da Doutrina Monroe, alterou a política hemisférica dos EUA ao legitimar intervenções diretas na América Latina. Enquanto a Doutrina Monroe visava impedir a presença europeia, o Corolário Roosevelt deslocou o foco para a ação norte-americana, permitindo a Washington se apresentar como 'polícia internacional' e intervir militarmente para garantir a estabilidade.

Com essa nova estratégia, a América Latina se torna novamente um ponto central na política externa dos EUA, sendo vista como um território estratégico para disputas e demonstrações de força militar. A abordagem amplia o conceito de terrorismo, equiparando cartéis e facções transnacionais a grupos jihadistas, e abre caminho para ações militares unilaterais em países da região.

O documento afirma que os EUA atuarão 'com governos locais quando estiverem dispostos e aptos a trabalhar conosco', mas que poderão agir sozinhos 'para proteger os cidadãos americanos'. Essa diretriz representa uma ruptura com o foco predominante em grupos como Al-Qaeda e ISIS, que caracterizou a política de contraterrorismo desde os ataques de 11 de setembro de 2001.

Trump classifica o narcotráfico como uma 'ameaça existencial', alegando que mais americanos morreram devido a drogas ligadas aos cartéis durante o governo de Joe Biden do que o total de militares norte-americanos mortos em combate desde 1945. A estratégia também atualiza o Corolário Roosevelt, priorizando a preeminência dos EUA no Hemisfério Ocidental sob o pretexto de combater migração ilegal e narcotráfico.

Um aspecto central da nova estratégia é a designação formal de cartéis e gangues transnacionais como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), o que altera significativamente o tratamento jurídico e militar do narcotráfico. Isso permite que os EUA utilizem recursos de inteligência e operações militares normalmente reservadas para o combate ao terrorismo internacional.

Além disso, o documento classifica o fentanil ilícito e seus precursores químicos como 'Armas de Destruição em Massa', elevando o combate a essas substâncias ao mais alto nível de segurança nacional. O texto também vincula organizações criminosas latino-americanas a governos considerados hostis, como Venezuela, Cuba e Irã.

A nova retórica já se reflete em ações concretas, como a operação militar em Caracas em janeiro de 2025, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Essa ação é apresentada como um exemplo da 'Operação Resolução Absoluta', que demonstra a implementação do 'Corolário Trump'.

Embora o Brasil não seja mencionado diretamente na estratégia, o país se tornou um ponto de discussão, com o governo Trump considerando classificar facções brasileiras como organizações terroristas. O tema foi um dos pontos sensíveis na reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, embora Lula tenha afirmado que não houve debate direto sobre isso.

A resistência do governo brasileiro à classificação das facções como terroristas se baseia na preocupação de que isso poderia abrir espaço para interferências externas e aumentar as pressões internacionais sobre a segurança pública. Contudo, Brasil e EUA discutiram cooperação contra o crime organizado, incluindo combate à lavagem de dinheiro e tráfico de armas.

A especialista Priscilla Mendes observa que a nova estratégia representa uma fusão entre contraterrorismo, guerra às drogas, migração e crime organizado, elevando a América Latina a uma posição prioritária na segurança estratégica dos EUA. Essa militarização crescente do combate ao narcotráfico pode gerar pressões internacionais sobre áreas sensíveis, como a Amazônia.

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