Um estudo recente do Unicef, realizado em parceria com a Novo Nordisk, revela que muitos cuidadores de crianças de até 6 anos no Brasil percebem alimentos ultraprocessados como saudáveis. A pesquisa indica que 52% dos entrevistados consideram iogurtes com sabor como saudáveis, enquanto 49% têm a mesma opinião sobre nuggets preparados na fritadeira elétrica.
Além disso, 68% dos participantes veem sucos com açúcar como saudáveis, e 63% fazem o mesmo em relação ao peixe frito. A pesquisa foi conduzida em três comunidades urbanas e envolveu 80 pessoas na etapa qualitativa e 514 na quantitativa, utilizando o Modelo de Determinantes Comportamentais do Unicef.
O relatório aponta que, embora os responsáveis consigam distinguir alimentos saudáveis dos não saudáveis, a forma de preparo e a composição dos produtos influenciam essa percepção. Termos como 'processado' ou 'ultraprocessado' não são mencionados pelos entrevistados.
Em 2022, o Brasil implementou a rotulagem nutricional frontal, que alerta sobre altos teores de açúcar, sódio e gordura. No entanto, 55% dos entrevistados afirmaram nunca ter olhado para essa informação antes de comprar um produto. Além disso, 62% disseram que nunca deixaram de comprar um item devido a informações nutricionais.
Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef no Brasil, destacou que a rotulagem deveria facilitar escolhas alimentares saudáveis, mas isso não está ocorrendo. A falta de educação nutricional é um fator crítico, especialmente entre pessoas com baixa escolaridade.
Raphael Barreto da Conceição Barbosa, pesquisador da Ensp/Fiocruz, observa que a desinformação é alimentada por estratégias da indústria alimentícia, que utiliza imagens e rótulos enganosos. Apesar de 55% ignorarem a rotulagem, 45% mudaram suas escolhas alimentares com base nos alertas.
O estudo também relaciona o consumo de ultraprocessados a fatores sociais, como o preço dos produtos e a sobrecarga das mães. A PNAD Contínua de 2022 revela que cerca de 90% das mães são responsáveis pela compra de alimentos para crianças.
Barbosa ressalta que a opressão de classe, raça e gênero afeta especialmente as mulheres negras, que enfrentam múltiplas responsabilidades. A insegurança alimentar é mais severa em lares chefiados por mulheres negras, conforme o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar.
Amaral também observou que a relação financeira influencia o consumo de ultraprocessados, que costumam ser mais baratos. A percepção de que esses produtos são uma conquista é comum entre os entrevistados.
Os especialistas concordam que é necessário desmistificar a ideia de que ultraprocessados são saudáveis, enfatizando a importância da educação e comunicação em saúde. O Unicef propõe fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados e expandir creches e escolas em tempo integral para melhorar a alimentação das crianças.
Embora o Brasil tenha avançado em segurança alimentar, ainda há muito a ser feito. Barbosa sugere medidas como a manutenção de impostos sobre bebidas açucaradas e a proibição de ultraprocessados em ambientes escolares.