Estudos epidemiológicos têm explorado a possível relação entre o uso do dispositivo intrauterino (DIU) hormonal e o risco de câncer de mama, um tema que gera dúvidas entre pacientes. Embora análises de grandes bases populacionais indiquem uma associação estatística entre o DIU liberador de levonorgestrel e um aumento no risco da doença, especialistas alertam para a necessidade de cautela na interpretação desses resultados.
Um estudo amplamente citado, publicado em 2024 no JAMA, foi realizado na Dinamarca e analisou dados de mais de 150 mil mulheres, metade usuárias do DIU hormonal. Após ajustes estatísticos, os pesquisadores observaram um aumento relativo de 40% no risco de câncer de mama associado ao uso do método. Outro estudo, mais recente, realizado na Coreia do Sul e publicado em 2025 na revista Obstetrics & Gynecology, acompanhou mulheres de 30 a 49 anos com diagnósticos que poderiam ser beneficiados pelo uso de levonorgestrel, identificando um risco 38% maior de desenvolver câncer de mama entre usuárias de DIU hormonal.
Contudo, é essencial interpretar esses achados com cautela. O oncologista Diogo Sales, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, observa que, apesar do aumento relativo demonstrado em alguns estudos, o aumento absoluto é baixo e semelhante aos riscos associados ao uso de anticoncepcionais orais, obesidade e consumo de álcool.
O DIU é um método contraceptivo de longa duração, disponível em versões de cobre e hormonal. O DIU de cobre libera íons que provocam uma reação inflamatória local, enquanto o DIU hormonal libera levonorgestrel, que espessa o muco cervical e altera o endométrio, dificultando a fecundação. Ambos têm alta eficácia contraceptiva, com taxa de falha inferior a 1%, e podem permanecer no organismo por vários anos.
No Brasil, o uso desses dispositivos ainda é relativamente baixo. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicam que apenas 3,8% das brasileiras utilizam o método, enquanto a pílula contraceptiva é a mais comum, usada por 34,1%. O acesso ao DIU no sistema público também é limitado, com apenas 19,7% das Unidades Básicas de Saúde realizando a inserção do dispositivo.
Além da contracepção, o DIU hormonal é utilizado no tratamento de condições ginecológicas, como o sangramento uterino aumentado. Ele pode reduzir o espessamento do endométrio e evitar intervenções cirúrgicas.
A ligação entre contraceptivos hormonais e câncer de mama está relacionada ao papel dos hormônios sexuais no crescimento das células mamárias. O tecido mamário é sensível ao estrogênio e progesterona, que regulam a proliferação celular. A exposição prolongada a esses hormônios pode aumentar a probabilidade de surgimento de células cancerígenas.
Fatores como menarca precoce, menopausa tardia e histórico familiar também influenciam o risco. O oncologista Sales destaca que o risco associado ao uso de anticoncepcionais é similar a outros fatores conhecidos, como histórico familiar de câncer de mama.
Muitos estudos observacionais não conseguem controlar completamente outros fatores que influenciam o risco de desenvolver a doença, tornando a interpretação dos percentuais complexa. No caso da Dinamarca, o aumento absoluto foi de um a 14 casos adicionais de câncer de mama a cada 10 mil mulheres que utilizam o DIU.
A presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da FEBRASGO, Ilza Maria Urbano Monteiro, ressalta a importância de mudanças no estilo de vida para reduzir o risco de câncer de mama, além de considerar a dimensão de tratamento na avaliação de risco e benefício do método contraceptivo.
O DIU hormonal também está associado à proteção contra o câncer de endométrio. A escolha do método deve alinhar os objetivos da paciente com possíveis riscos e contraindicações, como histórico oncológico. O DIU hormonal é contraindicado para quem já teve câncer de mama, pois o hormônio pode ter efeitos sistêmicos.
O oncologista Diogo Sales enfatiza que toda medicação, incluindo vitaminas, possui efeitos benéficos e colaterais. É fundamental que as pacientes sejam bem orientadas sobre os potenciais riscos associados ao uso do DIU hormonal.