Foi no peito, na raça e no convencimento que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “arrancou” junto ao Congresso Nacional uma vitória histórica para a classe trabalhadora com a promulgação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho. A PEC assegura dois dias de folga por semana para o trabalhador sem diminuição do salário e obteve 472 votos favoráveis e 22 contrários na Câmara, enquanto no Senado o placar foi de 75 a 1, com apenas o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) votando contra. A oposição no Senado defendia que era preciso discutir de forma aprofundada a reforma e chegou a apresentar, através do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República uma proposta alternativa, fixando o pagamento por horas, modelo em que o trabalhador só receberia pela hora trabalhada e poderia ter seu salário reduzido de forma proporcional.
O epílogo da batalha campal travada em plena eleição presidencial, faltando praticamente uma semana para a realização do segundo turno que opõe Lula a Flávio, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, mobilizou forças políticas de esquerda e direita e chegou a ser retardado pela cúpula do Senado, presidido por Davi Alcolumbre, que acabou acusando o impacto da pressão da opinião pública. O candidato Flávio Bolsonaro chegou a defender publicamente a PEC de Marinho como a melhor solução para os trabalhadores, mas, em face de manifestações populares favoráveis ao fim da 6×1 declarou, declarou, na véspera da votação, que se posicionaria “conforme a vontade da maioria do povo”. Na quarta-feira, Flávio votou de forma virtual a favor da medida, sem participar da sessão, a pretexto de cumprir agenda em Porto Alegre (RS). Mas o seu partido deixou claro que pretende insistir em rever a jornada após a eleição, focando na PEC das horas trabalhadas.
O presidente Lula, que parecia estar nas cordas, acossado por pesquisas de intenção de votos que explodiram nas últimas semanas apontando suposto empate matemático com o seu adversário, foi à luta e buscou a voz das ruas para fazer valer mais um grande marco da sua gestão. O fim da escala 6×1 constituía uma espécie de “tabu” para elites empresariais conservadoras e para grupos econômicos que não abrem mão de privilégios nem cedem um milímetro na encampação de bandeiras patrióticas ou de justiça social. A orquestração midiática que foi desencadeada, com ameaças terroristas de demissões ou desemprego em massa como consequência do novo modelo, motivou Lula a comprar a briga. A direita, constrangida, beijou a lona. Lula exibiu a Constituição na cerimônia que promulgou o fim da escala 6×1 e reconheceu a existência de opiniões divergentes devido ao caráter polêmico da proposta.
Mas sem divergência, a democracia vai para o lixo — pontuou, em uma outra lição sobre valores que realmente importam para a cidadania.
Ao preconizar a convivência democrática entre os poderes, Lula citou sua relação com o presidente da Câmara dos Deputados, o paraibano Hugo Motta (Republicanos) e com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá, num claro aceno à governabilidade diante da perspectiva de um Congresso com maior presença de partidos de oposição e de direita a partir da legislatura de 2027. A redução do teto da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas foi uma conquista comparável a avanços trabalhistas implantados num dos governos do ex-presidente Getúlio Vargas. A medida enfim promulgada entrará em vigor de forma gradual num período de 14 meses, mas em um ano a jornada estará reduzida para o teto final de 40 horas. A norma pode ter flexibilização em caso de acordo formal firmado entre sindicatos de categorias e empresas, obedecida a média mensal de repousos.
A campanha presidencial de 2026 no Brasil entra na sua reta final, agitada por debates em emissoras de televisão com a presença confirmada dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Nantes Bolsonaro. O ambiente de polarização e, especialmente, de radicalização, persiste, apesar da expectativa de que houvesse uma redução em virtude do desfecho de eleições para governadores em vários Estados e de eleições legislativas, para o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, além de Assembleias estaduais e distritais. Desde o primeiro turno a campanha comportou, inclusive, ameaças de interferência externa, com insinuações de retaliações ao Brasil por parte de emissários do governo dos Estados Unidos. Houve, também, o impacto de escândalos internos como o do Banco Master, de propriedade do banqueiro Daniel Vorcaro, respingando sobre campanhas as mais distintas. O presidente Lula, que busca a reeleição, é o alvo central dos ataques da direita ensandecida e das forças conservadoras ou retrógradas, mas tem demonstrado fôlego invejável, como ainda agora quando extraiu do Parlamento uma vitória inédita em período de disputa eleitoral.
Fonte: Polemicaparaiba