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Legado de Tarcísio Burity na Política da Paraíba

O ex-governador Tarcísio Burity deixou uma marca na história política da Paraíba. Entre obras que impactaram o turismo e a cultura do estado, embates com servidores públicos e confrontos intensos com a Assembleia Legi.....
Foto: Jornaldaparaiba

O ex-governador Tarcísio Burity deixou uma marca na história política da Paraíba. Entre obras que impactaram o turismo e a cultura do estado, embates com servidores públicos e confrontos intensos com a Assembleia Legislativa, o político construiu uma trajetória cercada de admiração, críticas e episódios que ainda ecoam quase quatro décadas depois.

Eleito democraticamente em 1986, após já ter governado a Paraíba como indicado do regime militar entre 1979 e 1982, Burity comandou o estado em um dos períodos mais turbulentos da redemocratização brasileira.

O segundo mandato dele coincidiu com a elaboração da nova Constituição Federal, o fortalecimento dos movimentos sindicais e uma intensa reorganização das forças políticas locais.

Esta reportagem é o primeiro episódio da série especial

Governadores: A História do Executivo na Paraíba

, projeto original do Jornal da Paraíba e da Rádio CBN, idealizado pelo repórter Guilherme Bezerra e com reportagens do repórter Gustavo Demétrio.

O primeiro episódio do podcast está disponível no Spotify e em todas as plataformas de áudio. OUÇA ACIMA

Dois governos e uma figura central da política paraibana

Dois governos e uma figura central da política paraibana, Tarcísio Burity – Foto: Reprodução/Instagram.

A trajetória de Tarcísio de Miranda Burity no Palácio da Redenção, então sede do governo, começou ainda durante a ditadura militar. Em 1979, ele assumiu o governo da Paraíba como o último governador indicado pelo regime, permanecendo no cargo até 1982. Naquele período, o Brasil iniciava um lento processo de abertura política, e Burity procurava se adaptar ao novo momento vivido pelo país.

O governo dele se adequou àquele momento de abertura política do fim dos anos 70 e início dos anos 80

, avalia o professor de História e cientista político Rodrigo Freire.

Segundo o pesquisador, Burity era um político conservador, mas que soube compreender as mudanças do cenário nacional.

Era um político conservador, que não necessariamente poderia ser chamado de reacionário. Ou seja, foi um político e um governo que se adequou naquele momento de abertura política — afirmou o professor.

Anos depois, já no processo de redemocratização, Burity voltou à disputa eleitoral e venceu o pleito de 1986 pelo PMDB. Com 755 mil votos, o equivalente a 61% do eleitorado da época. Ele derrotou Marcondes Gadelha (PFL) com ampla vantagem.

A eleição foi simbólica: tratava-se do primeiro governo estadual eleito diretamente após o fim da ditadura militar e ocorreu simultaneamente à escolha dos deputados constituintes responsáveis por elaborar a nova Constituição do país.

As obras

O legado mais visível dos governos Burity permanece espalhado pela Paraíba. Muitas das obras idealizadas e executadas durante as gestões, com maioria concentradas na primeira passagem como governador, continuam em funcionamento e são consideradas marcos do desenvolvimento urbano, cultural e turístico do estado.

Entre as principais realizações estão, no primeiro governo

O Espaço Cultural José Lins do Rego;O Mercado de Artesanato Paraibano;O Centro Turístico de Tambaú;Projetos ligados à expansão do turismo no litoral paraibano.O turismo, inclusive, tornou-se uma das principais apostas do governo. Em entrevistas recuperadas para o podcast, Burity defendia que a atividade seria fundamental para impulsionar a economia da Paraíba.

Com a consolidação do turismo no nosso estado, nós vamos provocar um salto qualitativo em nossa economia — afirmou o ex-governador em entrevista ao programa “Isso é Brasil”, do SBT, em 1989.

Na mesma entrevista, ele também defendia a preservação ambiental e o controle do gabarito das construções na orla de João Pessoa, debates que seguem atuais décadas depois.

Para Glauce Burity, viúva do ex-governador e autora de um livro sobre sua trajetória, as obras representam um símbolo permanente do legado político deixado pelo marido, continuado no segundo mandato, o primeiro democraticamente.

As obras dele, construídas de pedra e cal, ainda hoje se mantêm vivas e testemunhas das realizações do governo dele — afirmou.

Setusa e a crise no transporte público

No governo Burity, houve uma crise na Setusa – Foto: Arquivo/TV Cabo Branco.

Um dos episódios mais emblemáticos do segundo governo Burity envolveu o transporte público de João Pessoa.

Em 1988, protestos contra o aumento das passagens tomaram o Centro da capital. Houve depredações, ônibus incendiados e paralisação do sistema. Segundo relatos reunidos pelo jornalista André Firmino em uma pesquisa extensa no Trabalho de Conclusão de Curso dele, milhares de pessoas chegaram a voltar para casa a pé após a retirada dos ônibus de circulação pelas empresas privadas.

Diante da crise, Burity decidiu congelar o valor da tarifa e criou a Setusa (Serviço Estadual de Transportes Urbanos S.A). A empresa pública oferecia passagens mais baratas e implantou gratuidades, incluindo o passe livre estudantil, que marcou gerações de estudantes pessoenses.

O posicionamento de Burity foi congelar o preço da passagem e criar uma empresa pública de transporte com metade do valor convencional — explicou André Firmino.

Em pronunciamento da época, recuperado pelo podcast, o governador afirmou que o estado poderia intervir nas empresas privadas caso os reajustes fossem mantidos.

Nós não podemos permitir que, de forma unilateral, sem levar em conta a situação da população mais pobre, se faça um aumento tão exagerado — declarou.

Crises políticas e oposição dentro da própria baseApesar da vitória expressiva nas urnas para o governo democrático, Burity enfrentou dificuldades constantes na relação com a Assembleia Legislativa. O conflito se intensificou durante a elaboração da nova Constituição estadual.

Mesmo tendo maioria partidária, o governador conviveu com dissidências dentro do próprio partido. O então presidente da Assembleia, João Fernandes, tornou-se um dos principais opositores políticos do governo.

Historicamente, os poderes executivos desejam impor ao Legislativo a sua vontade

, relembrou o ex-deputado durante entrevista para a série.

O ex-líder do governo Ramalho Leite afirmou que parte da oposição tentou construir uma Constituição estadual “contra Burity”.

Segundo ele, os conflitos internos inviabilizaram articulações políticas importantes, incluindo um suposto plano para que Burity deixasse o governo rumo ao Supremo Tribunal Federal à época.

Embates com professores e funcionalismoAs relações com os servidores públicos também foram marcadas por tensão na década de 1990.

De acordo com o professor e doutor em História Martinho Guedes, o segundo mandato de Burity começou já sob greve dos professores estaduais, que reivindicavam reajustes salariais e regularização de pagamentos atrasados.

Documentos históricos do jornal A União mostram que os conflitos com o magistério remontavam ao primeiro governo. Em 1981, uma paralisação da categoria sequer foi reconhecida oficialmente pelo estado.

A crise econômica nacional da década de 1980, marcada por hiperinflação e sucessivos planos econômicos fracassados, agravava ainda mais o cenário enfrentado pelo funcionalismo.

Burity depois do governoBurity ainda tentou retornar à vida pública disputando duas eleições para o Senado, em 1998 e 2002, mas acabou derrotado nas duas ocasiões.Ele morreu em 8 de julho de 2003, aos 64 anos.

Admirado por aliados e criticado por adversários, Tarcísio Burity segue como uma das figuras mais influentes da história política da Paraíba.

Quase 40 anos depois de seu governo democraticamente eleito, o estado ainda convive com debates iniciados durante sua gestão: o crescimento do turismo, a ocupação da orla marítima e questão do transporte público.

O nome de Tarcísio Burity continua presente na memória política paraibana.

Onde ouvir o podcast

Além do Spotify, é possível ouvir o primeiro episódio da série

Governadores: A História do Executivo Na Paraíba

, pelo Deezer e também pelo Google Podcasts.

Foi parte importante do projeto do Cedoc da Rede Paraíba de Comunicação, com o levantamento de arquivos históricos sobre o governador.

O Jornal da Paraíba, a cada episódio, vai trazer a história dos governos em edições especiais em texto.

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