França e Alemanha decidiram cancelar o programa para a construção de um caça de nova geração, conhecido como FCAS (Futuro Sistema de Combate Aéreo). O anúncio expõe as limitações do discurso de unidade europeia, especialmente com o afastamento dos Estados Unidos em questões de defesa.
Lançado em 2017 como resposta ao avanço americano no setor, o FCAS tinha como objetivo unir as capacidades de defesa da França, representada pela Dassault, e da Alemanha, liderada pela Airbus Defesa e Espaço, em parceria com uma empresa espanhola. No entanto, a invasão russa da Ucrânia e o desengajamento dos EUA sob a administração de Donald Trump não foram suficientes para superar as rivalidades entre os países.
A Dassault, que possui uma longa tradição na aviação de caça e atualmente comercializa o modelo Rafale, buscava manter a primazia tecnológica do projeto. Por outro lado, os alemães e espanhóis, que fabricam o Eurofighter Typhoon em colaboração com britânicos e italianos, desejavam um espaço compartilhado no desenvolvimento.
O rompimento, que já se tornava evidente desde 2021, foi confirmado na terça-feira (9) pelo presidente francês Emmanuel Macron e pelo premiê alemão Friedrich Merz. Merz tentou minimizar a situação na quarta-feira (10), afirmando que os países continuarão a colaborar no campo da defesa.
A crescente escalada de gastos militares da Alemanha, que planeja investir mais de R$ 2 trilhões em dez anos, gera preocupações na França sobre a possibilidade de perder sua posição como líder na indústria de defesa europeia.
O cancelamento do FCAS destaca as dificuldades políticas nas relações europeias e levanta questionamentos sobre a capacidade industrial do continente frente à produção em larga escala dos EUA. Desde o início da Guerra da Ucrânia, em 2022, a Alemanha já encomendou 35 caças F-35, fabricados nos Estados Unidos.
Atualmente, não existem caças de quinta geração fabricados na Europa, apenas modelos avançados de quarta geração, como o Rafale, o Eurofighter e o Gripen sueco, que foi adquirido pelo Brasil. A Alemanha pode agora optar por mais F-35 enquanto decide sobre seu futuro na aviação militar.
O FCAS tinha como meta desenvolver caças de sexta geração, que integrariam as melhores características dos modelos anteriores e funcionariam como centros de comando para drones com inteligência artificial. Outros países, como Reino Unido, Japão e Itália, também estão desenvolvendo programas semelhantes.
A fabricante sueca Saab, que produz em parceria com a Embraer os Gripens adquiridos pelo Brasil, pode se beneficiar do fracasso do FCAS. A Saab já demonstrou interesse em expandir sua colaboração com o Brasil, que planeja adquirir mais 20 caças.
Com o cancelamento do FCAS, há especulações de que a Saab possa ser alvo de interesse por parte da Airbus, o que poderia impactar diretamente a cooperação entre Brasil e Suécia.