O que mais chama atenção na pré-candidatura de Nabor Wanderley ao Senado não é apenas a dificuldade em crescer nas pesquisas ou empolgar o eleitorado paraibano. O que realmente impressiona é o fato de que, mesmo cercado por uma das estruturas políticas mais poderosas da Paraíba e do Brasil atualmente, seu nome simplesmente não consegue “decolar”.
E não estamos falando de pouca coisa.
Nabor está inserido dentro da máquina governista estadual, conta com o apoio declarado de dezenas e dezenas de prefeitos espalhados pela Paraíba e ainda possui um fator político que, em tese, deveria impulsionar qualquer candidatura majoritária: seu filho, o deputado federal Hugo Motta, ocupa hoje a presidência da Câmara Federal, um dos cargos mais poderosos da República.
Em qualquer outro cenário político, esse conjunto de forças seria suficiente para transformar uma candidatura em algo praticamente imbatível. Mas não é isso que está acontecendo.
Mesmo com toda essa engrenagem política funcionando, mesmo com prefeitos sendo apresentados quase diariamente como aliados, mesmo com o peso institucional gigantesco que o grupo possui, o nome de Nabor Wanderley continua encontrando resistência popular. E isso não acontece por acaso.
A verdade é que apoio político não é mais sinônimo de transferência automática de votos. O eleitor mudou. A sociedade mudou. O acesso à informação mudou completamente o jogo político.
A população está cansada de escândalos sucessivos envolvendo políticos de diferentes partidos e ideologias. O sentimento de descrença cresce quando surgem notícias sobre investigações financeiras, relações suspeitas com instituições bancárias e possíveis favorecimentos políticos. E isso inevitavelmente respinga em quem está ao lado desses episódios, ainda que as investigações estejam em andamento.
E é justamente nesse ponto que começam os problemas mais delicados para o grupo político de Nabor Wanderley e Hugo Motta.
Nos últimos meses, o nome do deputado Hugo Motta passou a aparecer associado a reportagens nacionais envolvendo o Banco Master, instituição que vem sendo alvo de questionamentos, investigações e suspeitas relacionadas a operações financeiras consideradas atípicas e milionárias.
Reportagens amplamente divulgadas apontaram pedidos de investigação sobre operações financeiras envolvendo familiares ligados ao deputado, incluindo empréstimos milionários relacionados à cunhada de Hugo Motta. O caso ganhou repercussão nacional justamente pelo volume financeiro envolvido e pelas suspeitas levantadas por órgãos de controle.
Da mesma forma, o pai do deputado federal Hugo Motta, o prefeito afastado de Patos e pré-candidato ao Senado Nabor Wanderley, também aparece envolvido em denúncias e irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da Paraíba. Em decisão recente, o TCE considerou procedente denúncia relacionada a falhas graves no sistema eletrônico de protocolo e na gestão de processos administrativos da Prefeitura de Patos. O caso se soma a auditorias e investigações que apontam supostas inconsistências e possíveis desvios milionários na gestão municipal, com valores que ultrapassariam R$ 21 milhões, segundo relatórios técnicos do próprio Tribunal de Contas.
Após a repercussão das denúncias, chamou atenção o pedido para que o processo tramitasse sob sigilo. Afinal, se não há o que esconder, por que retirar da população o acesso a informações que deveriam ser públicas? Transparência não pode ser seletiva, sobretudo quando estão em jogo recursos públicos e o interesse coletivo.
Além de tudo disso, o Banco Master passou a ocupar espaço constante no noticiário econômico e político brasileiro por suspeitas envolvendo operações financeiras de alto risco, movimentações bilionárias e possíveis irregularidades investigadas por autoridades.
E na política existe uma realidade dura: mesmo quando não há condenação judicial, o desgaste da imagem pública acontece. O eleitor observa. O eleitor associa. O eleitor desconfia.
Hoje, ninguém consegue mais esconder escândalos atrás de campanhas publicitárias milionárias ou de alianças institucionais. A velocidade da internet destruiu o velho modelo político baseado apenas em controle de narrativas. A população acompanha tudo em tempo real. Cada denúncia, cada investigação, cada movimentação suspeita rapidamente chega às redes sociais, aos grupos de WhatsApp e às rodas de conversa.
Por isso talvez o nome de Nabor Wanderley não consiga empolgar como seus aliados imaginavam. Porque existe uma diferença enorme entre apoio político institucional e aceitação popular verdadeira.
Prefeitos, governador, deputados, vereadores e demais lideranças podem declarar apoio por conveniência política, por alianças administrativas ou por interesses partidários. Mas o eleitor, sozinho diante da urna, decide conforme aquilo que sente, vê e acredita.
E muitos paraibanos começam a enxergar justamente um projeto político cercado de poder, influência e articulações, mas também marcado por desgastes, suspeitas e um sentimento crescente de desconfiança popular.
O problema é que o Brasil vive um momento em que o cidadão não suporta mais a velha política do “faz de conta”. Não dá mais para fingir que nada está acontecendo. Não dá mais para empurrar denúncias para debaixo do tapete esperando que o tempo resolva tudo.
A população quer transparência. Quer coerência. Quer representantes que inspirem confiança.
E quando uma candidatura tão poderosa não consegue ganhar o coração do povo, mesmo tendo máquina, prefeitos, estrutura, governo e influência nacional, talvez exista uma explicação simples: o povo está cansado.
Cansado de ver políticos enriquecerem enquanto municípios continuam sofrendo. Cansado de assistir grupos familiares se perpetuando no poder. Cansado de denúncias, escândalos e suspeitas envolvendo sempre os mesmos nomes. Cansado de perceber que muitos aparecem apenas em época eleitoral.
A Paraíba vive uma eleição que exigirá consciência, atenção e responsabilidade do eleitor.
Entre os nomes colocados para a disputa, dentro da mesma majoritária, ao Senado estão
André Gadelha e Veneziano Vital (Cícero Lucena ao Governo – MDB)
João Azevêdo e Nabor Wanderley (Lucas Ribeiro ao Governo – PP)
Marcelo Queiroga (Efraim Filho ao Governo – PL)
? (Olímpio Rocha ao Governo – PSOL)
Cabe agora ao povo analisar cada trajetória, acompanhar os fatos, observar quem realmente trabalha pelos municípios e quem apenas utiliza o poder político como instrumento de fortalecimento pessoal e familiar.
O eleitor paraibano não pode mais aceitar ser tratado apenas como massa de manobra eleitoral.
Chegou a hora de separar discurso de realidade.
Porque no final das contas, nenhuma estrutura política é maior do que a consciência popular quando ela decide acordar. E como diz o ditado: “Quem com porco deita, na lama acorda.”
Por Simone Duarte
Fonte: Simoneduarte