A recente informação de que o governo dos Estados Unidos enviou um aviso ao presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, sobre uma ofensiva contra as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) provocou debates entre autoridades policiais brasileiras. O colunista Paulo Cappelli, do Metrópoles, trouxe à tona opiniões de delegados que atuam nos estados onde essas facções foram fundadas, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Um delegado paulista, que preferiu não se identificar, afirmou que não vê possibilidade de intervenção direta dos EUA no Brasil. Ele destacou que, embora exista uma lei brasileira que tipifica o crime de terrorismo, essa classificação exige um objetivo político, ideológico ou religioso, além da violência extrema. O delegado lembrou que já existem acordos de cooperação jurídica internacional entre Brasil e EUA, como os Tratados de Assistência Jurídica Mútua (MLATs), e o mais recente, de 2026, chamado Mutual Interdiction Team (MIT), que visa o compartilhamento de inteligência em tempo real.
O delegado expressou preocupação com a interferência direta dos EUA, ressaltando que, se os EUA classificarem o CV e o PCC como organizações criminosas estrangeiras, isso pode resultar em sanções que afetam a soberania americana, mas não a nacional. Ele reiterou que a cooperação deve se dar por meio de intercâmbio de informações e recursos.
Outro delegado de São Paulo explicou que, caso os EUA adotem essa medida, os efeitos se restringiriam à jurisdição americana e não transformariam automaticamente os grupos em organizações terroristas sob a lei brasileira. Ele enfatizou que sanções ou ações militares no Brasil dependeriam de instrumentos multilaterais ou de aprovação judicial e legislativa.
Enquanto alguns delegados em São Paulo adotam uma visão mais restritiva, autoridades de segurança do Rio de Janeiro têm uma perspectiva diferente, especialmente após operações como a megaoperação Contenção. Delegados que enfrentam as facções argumentam que o CV opera com características de organizações insurgentes, utilizando drones, armamento pesado e táticas coordenadas de violência.
O termo 'narcoterrorismo' tem sido utilizado para descrever a atuação dessas facções, que controlam territórios e impõem regras à população, desafiando diretamente o Estado. O governo estadual também passou a considerar o avanço das facções como uma ameaça que vai além da segurança pública tradicional, caracterizando um cenário de conflito armado urbano.
Autoridades locais avaliam que a dinâmica atual, marcada por ataques coordenados e uso de explosivos, rompeu com a lógica histórica do crime organizado, exigindo uma reclassificação jurídica mais rigorosa. Frases como 'isso não é mais segurança pública, é guerra' refletem essa nova compreensão sobre a atuação das facções.
Fonte: Metropoles