Em junho de 2024, antes de assumir o cargo de primeiro-ministro, o trabalhista Keir Starmer afirmou que o debate sobre o retorno do Reino Unido à União Europeia geraria um "tumulto indesejável". Dois anos depois, Starmer perdeu a eleição e a discussão sobre o Brexit se tornou inevitável, especialmente com a aproximação do décimo aniversário do referendo.
Os britânicos estão vivenciando um sentimento conhecido como "bregret", uma combinação das palavras "Britain" e "regret" (arrependimento). Recentemente, muitos cidadãos foram às ruas pedindo uma reaproximação com a União Europeia.
Uma pesquisa do YouGov revelou que 56% da população considera o Brexit um erro, enquanto 31% ainda apoiam a decisão tomada em 23 de junho de 2016, quando 51,9% dos eleitores votaram a favor da saída.
Dani Loughran, diretora de uma distribuidora de produtos químicos na região metropolitana de Londres, é uma das que se arrependeram. Sua empresa teve que abrir subsidiárias em outros países europeus para continuar exportando, resultando na criação de empregos fora do Reino Unido.
Daniel Pineu, professor da Universidade de Amsterdã, comenta que a expectativa de que o Reino Unido se tornaria uma espécie de Noruega, mantendo proximidade com a UE enquanto fazia acordos com outros países, não se concretizou. O Brexit dificultou o comércio com o principal mercado britânico.
O debate sobre o Brexit polarizou o país em 2016, com defensores buscando mais controle sobre a imigração e opositores prevendo uma recessão econômica. Após dez anos, os cenários extremos não se confirmaram, mas o Reino Unido enfrenta uma lenta decadência econômica.
Um estudo da Universidade Stanford comparou a evolução da renda per capita do Reino Unido com a de países semelhantes, revelando que os britânicos estão 6% atrás da média. Os pesquisadores estimaram que, sem o Brexit, a renda per capita poderia ter crescido 8% mais nos últimos dez anos.
Historicamente, o Reino Unido sempre buscou laços mais estreitos com os Estados Unidos, mas o Brexit demonstrou que sua força econômica estava ligada à Europa. Mesmo após a separação, a UE continua sendo o maior parceiro comercial do Reino Unido.
O setor de bens foi o mais afetado pelo Brexit, com agricultores, pescadores e a indústria de manufatura enfrentando dificuldades devido à burocracia imposta por 27 países. Por outro lado, o setor de serviços, que inclui grandes bancos e escritórios de advocacia, tem se mantido mais resistente.
Entretanto, os bancos britânicos enfrentam restrições para operar na UE, levando muitos a abrir subsidiárias no continente. O setor financeiro, que antes representava 9,4% do PIB, agora responde por 7,8%.
A mudança na geopolítica também impactou o Reino Unido, com o aumento do gasto em defesa da UE, que agora prioriza países como França, Alemanha e Polônia, deixando o Reino Unido sem acesso a esses fundos.
Os trabalhadores que apoiaram o Brexit, como os da indústria naval, temem a concorrência de imigrantes. Apesar disso, a imigração permanece constante, mas agora vem de outras regiões, como a Ásia.
O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, que sempre contou com médicos estrangeiros, agora depende de profissionais de outras partes do mundo, o que tem alimentado o crescimento de discursos anti-imigração.
Os principais perdedores do Brexit, como trabalhadores de fábricas e pequenos empresários, estão sendo disputados por políticos de direita e esquerda. Andy Burnham, um dos possíveis sucessores de Starmer, defende uma reaproximação com a UE.
Phillip Hammond, ex-chanceler, acredita que Bruxelas veria com desconfiança qualquer aproximação e que o Reino Unido continuará na periferia da UE, da qual sua economia depende.
Todos os economistas do mundo diziam que cortar laços com o mercado que estava à nossa disposição do outro lado do Canal da Mancha nos faria mais pobres. O problema é que os eleitores escolheram isso
, conclui Hammond.