A decisão de eliminar o glúten da alimentação, muitas vezes tomada de forma autônoma, pode ter consequências sérias para o diagnóstico da doença celíaca. Essa condição autoimune é desencadeada pelo consumo de glúten, proteína encontrada no trigo, cevada e centeio. Para que os exames possam identificar a doença, é essencial que o organismo esteja exposto ao glúten de maneira regular.
O gastroenterologista Caio Magrini, do Hospital Samaritano Higienópolis, explica que a interrupção do consumo de glúten pode interferir nos resultados dos exames.
Ao interromper o consumo, ocorre redução da inflamação intestinal e queda dos marcadores imunológicos. Isso pode levar a resultados falsamente normais, atrasando ou até impedindo o diagnóstico correto
, afirma.
A nutróloga Liliane Oppermann alerta que a melhora dos sintomas não é sinônimo de confirmação da doença.
Muitas pessoas começam uma dieta sem glúten ao perceberem melhora de sintomas como estufamento, diarreia, fadiga ou dor abdominal. O problema é que isso pode mascarar a doença celíaca
, destaca.
O diagnóstico da doença celíaca geralmente envolve exames de sangue, testes genéticos e endoscopia com biópsia intestinal. Os principais exames incluem a detecção de anticorpos anti-transglutaminase e anti-endomísio, além da análise da mucosa do intestino delgado. Magrini ressalta que, ao parar de consumir glúten antes da investigação, os anticorpos podem diminuir e o intestino começa a se recuperar, reduzindo os sinais da doença.
Os sintomas da doença celíaca vão além dos problemas intestinais. Em adultos, podem surgir anemia, fadiga, osteoporose precoce, infertilidade, alterações de humor e deficiência nutricional. Nas crianças, os sinais mais comuns incluem diarreia crônica, barriga distendida, atraso no crescimento e irritabilidade.
É importante destacar que a doença celíaca não deve ser confundida com sensibilidade ao glúten ou alergia ao trigo, pois cada uma dessas condições possui causas, exames e tratamentos distintos.
Os especialistas também alertam que a retirada do glúten sem necessidade pode levar a restrições alimentares desnecessárias, dificuldades sociais e até deficiência nutricional. A recomendação é buscar avaliação médica em casos de sintomas intestinais persistentes, anemia sem causa definida, perda de peso, histórico familiar da doença ou presença de doenças autoimunes. O acompanhamento médico é fundamental para evitar erros no diagnóstico e assegurar que o paciente receba o tratamento adequado.