Enquanto Estados Unidos e México enfrentam questionamentos ligados à segurança às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o Canadá chega ao torneio em uma posição diferente. Longe das polêmicas envolvendo restrições migratórias norte-americanas e dos temores relacionados ao crime organizado em algumas regiões mexicanas, o país aparece como o anfitrião mais discreto do Mundial e, para muitos torcedores, também como uma espécie de "porto seguro
da competição. A percepção não significa ausência de preocupações. Assim como os demais coanfitriões, o Canadá tem investido milhões de dólares em operações de segurança e se prepara para receber um evento sem precedentes. A diferença, porém, está no contexto. Enquanto o governo de Donald Trump amplia esquemas de vigilância e endurece controles migratórios, e o México reforça a segurança diante das preocupações com a violência em estados como Jalisco, o discurso canadense tem sido marcado por palavras como cooperação, inclusão e acolhimento. “A Copa do Mundo da FIFA 2026 será um momento histórico para o Canadá, o México e os Estados Unidos, e estamos entusiasmados em receber visitantes de todo o mundo — afirmou ao Metrópoles o embaixador do Canadá no Brasil, Emmanuel Kamarianakis. Um contraste com os vizinhos Nos Estados Unidos, a preparação para a Copa tem sido acompanhada por medidas cada vez mais rigorosas de segurança. Nessa terça-feira (9/6), o secretário interino do Departamento de Segurança Interna (DHS), Markwayne Mullin, afirmou que o Escritório de Inteligência e Análise trabalhará para monitorar possíveis ameaças durante o torneio. Paralelamente, o governo Trump vem sendo alvo de críticas por restrições migratórias que já atingiram integrantes de delegações esportivas. Entre os casos mais repercutidos estão a negativa de entrada ao árbitro somali Omar Artan e dificuldades enfrentadas por membros da delegação iraniana. Mais de 120 organizações americanas também divulgaram um alerta sobre possíveis violações de direitos de visitantes internacionais durante o Mundial. No México, os desafios são diferentes. Em Guadalajara, uma das cidades-sede da competição, especialistas ouvidos pelo Metrópoles relataram preocupações relacionadas à segurança pública após os episódios de violência registrados depois da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o El Mencho. Especialistas mexicanos descreveram ao Metrópoles o cenário local como uma “calma tensa”, apontando que o crime organizado e a crise de desaparecimentos continuam entre as principais preocupações da população. Aposta na experiência Mesmo considerada a opção mais tranquila entre os países-sede, o Canadá também está longe de tratar a segurança como assunto secundário. O governo federal anunciou até 145 milhões de dólares canadenses em recursos adicionais para reforçar operações em Toronto e Vancouver, as duas cidades que receberão partidas do Mundial. Ao todo, o país sediará 13 jogos — sete em Vancouver e seis em Toronto. A seleção canadense fará sua estreia em casa, no dia 12 de junho de 2026, diante da Bósnia e Herzegovina, no Estádio de Toronto. Além dos investimentos, as autoridades apostam na experiência acumulada ao longo das últimas décadas. O país já recebeu eventos como os Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver em 2010, os Jogos Pan-Americanos de Toronto em 2015 e a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2015. “Não é a primeira vez que o Canadá sedia grandes eventos esportivos internacionais”, ressaltou Kamarianakis. Segundo o embaixador, o país trabalha em estreita colaboração com a FIFA, governos provinciais, municípios e parceiros dos Estados Unidos e do México para garantir uma operação integrada. “O forte nível de coordenação entre os parceiros nos dá confiança em nossos preparativos para este evento histórico”, afirmou. Partidas do Canadá 12 de junho — Canadá x Bósnia e Herzegovina, em Toronto 18 de junho — Canadá x Catar, em Vancouver 24 de junho — Canadá x Suíça, em Vancouver Vigilância reforçada Os preparativos incluem centenas de câmeras temporárias de monitoramento, integração entre forças policiais, controle de multidões e planos específicos para responder a ameaças como terrorismo, ataques com veículos, protestos de grande escala e incidentes cibernéticos. Em Vancouver, cerca de 200 câmeras extras foram instaladas em áreas estratégicas próximas ao BC Place, maior estádio do Canadá, e aos centros de treinamento. A tragédia ocorrida durante o Festival do Dia de Lapu-Lapu, em 2025, quando um veículo atropelou uma multidão e matou 11 pessoas, também levou as autoridades a rever protocolos e ampliar medidas de proteção física para grandes eventos. Mesmo assim, os responsáveis pela segurança mantêm um discurso de tranquilidade. O vice-chefe da polícia de Vancouver, Don Chapman, afirmou recentemente que o nível de ameaça terrorista no Canadá permanece “médio” e que não existem informações concretas indicando riscos específicos relacionados à Copa. Recado aos brasileiros Para os torcedores brasileiros, o governo canadense tenta transmitir uma mensagem simples: as portas estão abertas. “Os torcedores brasileiros são conhecidos em todo o mundo por sua paixão e entusiasmo pelo futebol, e estamos ansiosos para recebê-los no Canadá”, disse Kamarianakis. Segundo ele, além das partidas, os visitantes terão a oportunidade de conhecer a diversidade cultural canadense e participar das celebrações previstas para acompanhar o torneio.