O interesse dos jovens pela participação política tem refletido diretamente na procura pelos serviços da Justiça Eleitoral na Paraíba. Entre os dias 4 e 6 de maio de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) realizou 34.469 atendimentos presenciais em 51 municípios do estado, período marcado pela reta final para regularização e emissão do título de eleitor.
João Pessoa liderou o número de atendimentos, com 5.211 registros, seguida por Santa Rita (2.496), Campina Grande (2.351), Patos (1.224) e Guarabira (1.084). O Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), no entanto, não detalhou quantos desses atendimentos correspondem especificamente à emissão do primeiro título de eleitor por jovens de 16 e 17 anos.
O crescimento da participação juvenil aparece nos dados mais recentes da Justiça Eleitoral. Nas eleições municipais de 2024, a Paraíba contabilizou 64.866 eleitores de 16 e 17 anos aptos a votar. Comparado às eleições de outubro de 2022, em 2024 o número de eleitores representou um crescimento de 4,33%. Em 2025, mais de 4,2 mil jovens de 15 a 17 anos emitiram o Título Eleitoral.
Para a socióloga Wilka Barbosa, a juventude demonstrou desinteresse na política nos últimos anos, mas este fator vem se revertendo.
Depois de um período de afastamento e descrença política, especialmente entre 2016 e 2020, observamos um crescimento no número de jovens tirando o título eleitoral, sobretudo após 2022 — disse.
O período de 1964 e 1985, conhecido também como ‘Anos de Chumbo’, foi marcado pela perseguição aos jovens que eram contra à ditadura militar. Nesse cenário, o movimento estudantil tornou-se a principal resistência ao regime autoritário. Em revanche aos protestos dos estudantes, a sede das entidades estudantis foi fuzilada e incendiada em 1º de abril de 1964 pelo regime militar. Assim, a lei Suplicy de Lacerda colocou a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e outras organizações na ilegalidade.
Após mais de 21 anos sem eleições diretas para presidente, os estudantes foram linha de frente na campanha ‘Diretas Já!’, e tiveram um papel importante na eleição de Tancredo Neves para presidente pelo Colégio Eleitoral. Em 1988, a UBES conquistou o direito ao voto para jovens de 16 a 17 anos.
A Assembleia Constituinte era formada por parlamentares escolhidos para criar a nova Constituição brasileira, chamada de Constituição Cidadã. Assim, foi definida a emenda de Hermes Zanetti (PMDB-RS), que diz que o voto é obrigatório para os adultos a partir de 18 anos e facultativo para eleitores a partir de 16 anos e acima de 70.
Quase quatro décadas depois da conquista do voto facultativo aos 16 anos, o comportamento político da juventude brasileira mudou. Se nos anos 1980 a mobilização acontecia principalmente nas ruas, em grêmios estudantis e movimentos organizados, atualmente o engajamento político dos jovens também passa pelas redes sociais e plataformas digitais.
Em relação à juventude atual, nas décadas passadas, especialmente nos anos 1980 e 1990, as gerações anteriores tinham uma participação política mais organizada, com participação em grêmio, partidos e movimentos estudantis.
Hoje, o engajamento é mais fragmentado, imediato e pautado por causas específicas — afirmou Wilka.
As redes sociais produzem um efeito ambíguo — afirmou Wilka Barbosa ao explicar que as redes sociais aproximam os jovens da política, mas também ampliam a circulação da desinformação. “Plataformas como TikTok, Instagram e X transformaram a política em algo mais acessível, rápido e emocional, principalmente para as novas gerações. Porém, essas mesmas redes favorecem a disseminação de fake news, discursos extremistas e simplificações perigosas do debate público”, declarou.
O interesse político entre adolescentes e jovens tem relação direta com o impacto das decisões políticas no cotidiano da população, onde as pessoas podem ser ouvidas através do voto para promover seus ideais através de um representante eleito.
O que motiva muitos jovens a tirar o título hoje é a percepção de que decisões políticas afetam diretamente sua vida concreta: acesso à universidade, emprego, transporte, direitos sociais, internet, cultura e até saúde mental — afirmou a socióloga.
Na avaliação de Wilka Barbosa, o cenário de polarização política vivido pelo Brasil nos últimos anos também contribuiu para aproximar os jovens do debate público. Segundo ela, a intensificação das disputas ideológicas fez com que parte da juventude passasse a sentir necessidade de se posicionar politicamente, diante da percepção de que decisões governamentais impactam diretamente questões sociais, econômicas e comportamentais do cotidiano.
Além das transformações no comportamento político da juventude, fatores sociais e econômicos na Paraíba também influenciam diretamente o interesse dos jovens pelas eleições. Questões como desemprego, acesso ao ensino superior e dificuldades de inserção no mercado de trabalho acabam impactando a forma como adolescentes e jovens enxergam o voto e a política. Na prática, são os governos que definem prioridades de investimentos e políticas públicas capazes de alterar as condições de vida da população.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua apontaram que a Paraíba registrou, no 4º trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024, uma queda de 33,3%. Em números absolutos, a desocupação caiu de 155 mil para 103 mil. Em relação ao acesso à educação superior, dados do Governo da Paraíba informaram, em 2025, que cerca de 37% dos alunos abandonaram a graduação por dificuldades no transporte, alimentação e moradia.
Em meio a esse cenário, muitos jovens passaram a enxergar o voto como instrumento de participação e possibilidade de mudança social.
A realidade social e econômica da Paraíba influencia diretamente o comportamento eleitoral da juventude. Em estados marcados por desigualdades sociais, desemprego juvenil e dificuldades de acesso a oportunidades, o voto tende a ser muito sensível às promessas de melhoria concreta das condições de vida — destacou Wilka.
Para a socióloga, o comportamento eleitoral da juventude atual é diverso e influenciado por diferentes fatores sociais e políticos.
O voto jovem hoje é múltiplo. Ele pode ser pragmático, ideológico e também fortemente orientado por pautas específicas, dependendo do contexto social do jovem. Uma parcela vota de forma pragmática, pensando em emprego, renda e oportunidades. Outra mantém forte identificação ideológica, especialmente em contextos de polarização política
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Parte desse público tem a escolha eleitoral baseada em propostas que possam melhorar questões concretas do cotidiano, como emprego, renda, acesso à educação e oportunidades profissionais. Outros jovens demonstram um voto influenciado por posicionamentos políticos, valores e identificação com campos como direita ou esquerda, especialmente em períodos de maior polarização no país. Há ainda aqueles que direcionam sua participação priorizando debates ligados à saúde mental, meio ambiente, direitos sociais, cultura, igualdade de gênero e combate às desigualdades.
Na Paraíba, o projeto “PoliTEENzando”, idealizado pelo TRE do estado, reuniu mais de mil jovens de 15 a 17 anos, com objetivo de incentivar a participação política e o exercício consciente da cidadania. A iniciativa apresentou rodas de conversa, oficinas e atividades culturais para estimular o protagonismo juvenil e a valorização da democracia. O projeto foi realizado na Capital, João Pessoa, e em cidades do interior, como Campina Grande e Patos.
Fonte: Polemicaparaiba