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Fatores que Influenciam a Decisão de Voto no Segundo Turno

A decisão de voto no segundo turno nem sempre significa escolher o candidato que melhor representa as próprias ideias. Em uma disputa entre dois concorrentes, o eleitor também pode levar em conta a rejeição ao adversá.....
Foto: Reprodução / Polêmica Paraíba

A decisão de voto no segundo turno nem sempre significa escolher o candidato que melhor representa as próprias ideias. Em uma disputa entre dois concorrentes, o eleitor também pode levar em conta a rejeição ao adversário, as prioridades do dia a dia e o receio de que a vitória de determinado grupo político represente um cenário indesejado. Entre a identificação com um projeto e a escolha de uma opção considerada menos ruim, diferentes fatores entram em jogo na hora de definir o voto.

A avaliação é da cientista política Cinthya Araújo, que analisa como sentimentos, experiências pessoais e a percepção sobre os candidatos influenciam o comportamento do eleitor. Segundo ela, a busca por uma alternativa considerada “menos pior” já estava presente desde o primeiro turno e ganha importância quando a disputa se concentra em apenas dois nomes.

Desde o primeiro turno das eleições que os eleitores estavam nessa busca de um candidato menos pior. Obviamente que tem as paixões, as afeições, sentimento de gratidão por um, por outro. Mas desde 2018 que tem essa, em relação a eleições presenciais

, afirma a especialista, ao comentar a percepção que tem sobre os discursos dos eleitores.

Nas eleições presidenciais de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno, marcado para este domingo (25). A votação ocorre após uma primeira etapa marcada pela polarização entre os dois candidatos e pela ausência de milhões de brasileiros nas urnas.

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 33,4 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno, realizado em 4 de outubro. O número corresponde a 21,08% do eleitorado apto a votar e representa um contingente que pode influenciar a mobilização eleitoral na etapa final da disputa.

Para Cinthya, quem ainda não definiu uma preferência ou não compareceu à primeira votação pode considerar diferentes fatores antes de tomar uma decisão.

O que vai ajudar a definir é, de fato, o que para cada pessoa são definições, são prioridades não negociáveis

, explica.

Segundo ela, a escolha passa pelo que cada pessoa considera essencial para sua vida e para o país, como economia, emprego, saúde, educação e segurança.

O que que pesa mais no dia a dia, se é a economia, se é a estabilidade, é, de empregos, se é a perspectiva que ele tem da importância das instituições, se é a saúde, se é a segurança, então, geralmente, pesa por esse lado

, afirma.

Rejeição também pesa na escolha

Ao analisar o comportamento do eleitor, a cientista política destaca que a decisão não depende somente da aprovação de um candidato. A rejeição ao adversário pode ser igualmente importante, sobretudo em uma disputa polarizada, na qual parte do eleitorado vota para evitar a vitória de determinado concorrente.

Para a ciência política, a rejeição é tão mais importante do que a aprovação. Ela é até mais determinante do que a aprovação daquele candidato

, afirma Cinthya.

Na prática, isso significa que uma pessoa pode votar em um candidato sem considerá-lo a melhor opção. A escolha pode estar relacionada à percepção de que ele representa um risco menor ou de que sua vitória impediria a chegada ao poder de um grupo político com o qual o eleitor não concorda.

A cientista política explica que a análise da rejeição ajuda a compreender por que alguém pode escolher um candidato com quem tem divergências, mas que considera preferível ao adversário.

Por mais que o candidato suba nas pesquisas em aprovação, também temos que saber o quanto a rejeição baixou. Porque são esses pontos de rejeição baixos que vai ajudar a ter uma noção de que aquele eleitor, aquela aquela parcela de eleitores que estão indo para votar não porque Lula é o melhor, mas porque aquela aquela vitória pode barrar algo que eu considero inaceitável

, exemplifica.

Esse comportamento ajuda a explicar por que eleitores que apoiaram candidaturas diferentes no primeiro turno podem se aproximar de Lula ou Flávio Bolsonaro na etapa final. A decisão não depende necessariamente de uma identificação completa com o novo candidato, mas da existência de pontos de convergência ou da rejeição mais forte ao adversário.

Em um cenário de polarização, a aversão a um dos concorrentes também pode mobilizar sentimentos intensos.

Essa aversão, esse medo acaba também mobilizando o eleitor com essa paixão muito forte, com essa emoção muito forte

, avalia Cinthya.

Economia, saúde e segurança entram na conta

Além da rejeição, as prioridades pessoais ajudam a orientar a escolha. Segundo Cinthya, o eleitor tende a considerar aquilo que afeta diretamente sua vida, como a situação econômica, a estabilidade no emprego, o acesso à saúde, a educação e a segurança pública.

Esses fatores podem ganhar ainda mais importância para quem ainda não definiu o voto ou pretende mudar de candidato. Nesse caso, a decisão passa por avaliar qual dos dois concorrentes se aproxima mais das necessidades e das expectativas individuais.

A especialista ressalta, porém, que nem sempre essa análise é feita a partir da leitura dos programas de governo. O comportamento público dos candidatos, as entrevistas e os debates também influenciam a percepção do eleitor.

Raramente as pessoas se apegam de fato aos programas de governo que os candidatos demonstram, na prática, e vão mais para os históricos midiáticos dos candidatos

, afirma.

Na avaliação dela, a imagem pública dos concorrentes pode ter um peso significativo. O eleitor observa como cada um se comporta em entrevistas, como reage a críticas e de que maneira se posiciona diante dos adversários.

Podem julgar como é que aquele candidato se comporta publicamente, como é que ele se comporta numa entrevista, num debate

, explica.

Assim, a forma como um concorrente reage a questionamentos ou sustenta seus argumentos pode pesar na decisão, inclusive entre pessoas que não acompanham detalhadamente as propostas apresentadas durante a campanha.

Debates e redes sociais influenciam a percepção

A campanha eleitoral também é acompanhada por meio de debates, reportagens jornalísticas e publicações nas redes sociais. Embora esses canais ofereçam informações sobre os candidatos, cada um pode produzir efeitos diferentes, conforme o perfil e as preferências de quem recebe o conteúdo.

Para Cinthya, os debates funcionam como uma situação de pressão na qual o eleitor observa não apenas as propostas, mas também a postura dos concorrentes, a maneira como respondem aos ataques e a capacidade de sustentar seus argumentos.

O debate na televisão, segundo ela, funciona como um “teste de estresse”, porque coloca os candidatos diante de questionamentos e confrontos ao vivo. Nesse contexto, detalhes como a postura e a reação às críticas podem interferir na avaliação do público.

Esse efeito, no entanto, tem limites. Quem já se identifica fortemente com um candidato dificilmente muda de opinião apenas por causa de um debate, avalia a especialista.

Se um eleitor gosta muito daquele candidato, já se identificou com aquele candidato, raramente é um debate na TV que vai mudar a opinião dele

, afirma.

Os trechos dos debates que circulam nas redes sociais também podem influenciar a percepção pública. Recortes de falas, checagens de informações e conteúdos produzidos por apoiadores ajudam a ampliar determinadas mensagens, mas também podem reforçar posições que os eleitores já defendiam. “Na rede social é onde deságua mesmo”, diz Cinthya, ao destacar a circulação de cortes dos debates e de conteúdos que mobilizam apoiadores.

A especialista chama atenção, ainda, para a distribuição de conteúdo pelas plataformas digitais. A circulação das publicações e o funcionamento dos algoritmos podem interferir nas informações que chegam ao eleitor, o que reforça a necessidade de monitoramento e verificação.

Na reta final da campanha, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Meta, empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook, garantisse tratamento igualitário às campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro nas plataformas. A medida ocorreu após questionamentos sobre diferenças na distribuição de conteúdos políticos.

Por que alguns eleitores mantêm ou mudam de candidato?

A passagem do primeiro para o segundo turno não significa necessariamente uma mudança de preferência. Para quem já se identifica com um candidato, um grupo político ou uma ideologia, manter o voto costuma ser uma forma de reafirmar essa escolha.

Segundo Cinthya, esse vínculo pode envolver tanto a identificação com as propostas quanto a relação com a trajetória do candidato e com o grupo que ele representa. Para esses eleitores, mudar de lado pode ser interpretado como uma ruptura com suas próprias convicções.

Para esse eleitor, mudar de lado agora seria como trair a causa

, explica a cientista política.

O cenário é diferente para quem apoiou um candidato eliminado no primeiro turno. Nesse grupo, a decisão pode depender de uma nova avaliação das alternativas disponíveis.

O eleitor pode comparar as propostas dos dois finalistas, observar os apoios políticos anunciados e identificar qual deles se aproxima mais das ideias que motivaram sua primeira escolha. Também pode reconsiderar o voto por receio de uma possível radicalização ou por entender que outro candidato oferece respostas mais adequadas às suas prioridades.

Quem muda de candidato costuma ser um eleitor mais independente

, afirma Cinthya. Segundo ela, esse grupo tende a avaliar mais o contexto da disputa do que a manter um compromisso político de longo prazo.

A especialista ressalta que a mudança pode acontecer quando o eleitor percebe que a candidatura escolhida anteriormente não representa a melhor alternativa diante das opções restantes.

Talvez esse eleitor está com medo de uma radicalização

, exemplifica.

Isso não significa, porém, que mudar de candidato seja necessariamente abandonar as próprias convicções. O eleitor pode continuar defendendo as ideias que motivaram seu primeiro voto e, ainda assim, considerar outro concorrente mais adequado para a etapa final da disputa.

Votos de candidatos eliminados não têm destino garantido

A transferência de votos é um dos desafios do segundo turno. Os candidatos que ficaram pelo caminho podem declarar apoio a um dos finalistas, mas isso não significa que todos os seus eleitores seguirão a mesma orientação.

Cinthya identifica diferentes possibilidades para esse eleitorado. Uma delas é escolher o candidato considerado menos distante de suas convicções. Outra é acompanhar o posicionamento político de quem recebeu seu voto no primeiro turno, levando em conta eventuais alianças e declarações de apoio.

Eles vão olhar em como o candidato se posiciona, se o candidato fez acordos formais, declarou

, explica, ao falar sobre a influência dos apoios políticos na escolha dos eleitores.

Há também quem não se sinta representado por nenhum dos dois concorrentes e opte por votar em branco, anular o voto ou não comparecer às urnas.

Para a especialista, não é possível presumir que o eleitor de uma candidatura eliminada migrará automaticamente para Lula ou Flávio Bolsonaro. A decisão depende das motivações que levaram cada pessoa a votar no primeiro turno e da avaliação que ela faz das opções restantes.

Não necessariamente quem vota em Augusto Cury, por exemplo, votaria em Bolsonaro ou em Lula

, afirma Cinthya, ao destacar a incerteza sobre o destino dos votos de candidatos eliminados.

A combinação desses comportamentos torna o resultado mais difícil de antecipar apenas com base nos apoios anunciados por lideranças políticas. A posição de um candidato pode influenciar parte de seus eleitores, mas a escolha individual continua sujeita a outros fatores.

Abstenção também faz parte do cenário

Além de conquistar os votos de quem escolheu candidatos eliminados, os finalistas enfrentam o desafio de mobilizar quem não compareceu às urnas no primeiro turno. Quem não votou em 4 de outubro pode participar normalmente do segundo turno, desde que esteja com a situação eleitoral regular. A ausência na primeira etapa não impede a participação na votação deste domingo (25).

Na avaliação de Cinthya, a ausência nas urnas e a escolha por votos brancos ou nulos podem expressar a insatisfação de parte do eleitorado com as alternativas apresentadas. Para algumas pessoas, essa é uma forma legítima de manifestação política.

Tornar seu voto nulo, para algumas pessoas pode ser uma forma legítima de se manifestar politicamente

, afirma.

A cientista política pondera, contudo, que essas decisões têm um efeito prático: deixam de contribuir para a escolha direta entre os candidatos e fazem com que o resultado dependa dos votos válidos registrados por quem comparecer às urnas. “Esse é o efeito prático de não ir votar”, resume.

No segundo turno, a decisão passa por diferentes caminhos: a identificação política, a rejeição ao adversário, as preocupações cotidianas e a avaliação das informações recebidas durante a campanha.

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