O Brasil tem observado um crescimento significativo no número de cursos de enfermagem, impulsionado pelo setor privado e pela educação a distância. Um relatório técnico recente destaca que as vagas em cursos superiores privados na área saltaram de 120 mil para mais de 503 mil entre 2010 e 2023, um aumento superior a 300%.
A modalidade EAD teve um crescimento ainda mais acentuado, com um aumento de 1.408% no mesmo período, representando atualmente metade das vagas disponíveis na rede privada. Em 2023, os cursos privados a distância somavam 253 mil vagas, superando as vagas presenciais.
O estudo, que faz parte do relatório
Demografia e Mercado de Trabalho da Enfermagem no Brasil
, revela que 90,7% das instituições de ensino de enfermagem estão no setor privado. Contudo, essa expansão rápida traz à tona um problema: muitas vagas permanecem desocupadas ou são abandonadas, com cerca de 30% das vagas na rede pública não sendo preenchidas.
A pandemia de Covid-19 destacou a dependência dos sistemas de saúde em relação à enfermagem, que representa aproximadamente 70% da força de trabalho em saúde no Brasil. Apesar do aumento no número de profissionais, a Organização Mundial da Saúde estima um déficit global de cerca de 6 milhões de enfermeiros.
O relatório também aponta desigualdades regionais, com o Sudeste e Sul concentrando a maioria das escolas e cursos, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam uma menor densidade de profissionais. Por exemplo, em 2018, o Pará tinha apenas 14,1 enfermeiros por 10 mil habitantes, em contraste com 49,3 no Distrito Federal.
O médico e pesquisador Mario Dal Poz, autor do relatório, alerta que a expansão desordenada pode comprometer a qualidade da assistência no SUS, enfatizando que a formação em enfermagem requer habilidades práticas que não podem ser totalmente adquiridas de forma remota.
Helena Leal, enfermeira e pesquisadora, complementa que a formação prática intensiva e a supervisão presencial são essenciais. Ela destaca que, embora laboratórios de simulação sejam úteis, não substituem a experiência direta com pacientes.
Além da graduação, o levantamento analisou mais de 5.500 cursos técnicos de enfermagem, onde o ensino presencial ainda predomina. No entanto, falhas significativas foram identificadas nos sistemas de informação sobre a formação técnica, revelando fragilidades no monitoramento da educação profissional.
Os pesquisadores também alertam para a possibilidade de cursos com infraestrutura inadequada e baixa qualidade pedagógica devido à rápida expansão do setor privado. Helena Leal menciona problemas como estágios mal supervisionados e a dificuldade de registro de diplomas nos conselhos regionais.
O EAD também se expandiu na pós-graduação, especialmente em áreas como oncologia e saúde mental, levantando preocupações sobre a formação prática desses profissionais. O relatório revela que apenas 14,9% das enfermeiras registradas possuem especialização formalmente cadastrada.
O levantamento também traça um panorama demográfico da enfermagem no Brasil, mostrando que o número de enfermeiros aumentou de cerca de 215 mil em 2010 para 524 mil em 2021. O perfil da categoria está mudando, com um aumento na participação masculina e na proporção de profissionais negros.
Helena defende um planejamento territorial mais eficaz para a formação, especialmente considerando o envelhecimento da população e o aumento de doenças crônicas. Ela critica a fiscalização dos cursos e destaca a necessidade de sistemas confiáveis para monitorar a qualidade da formação e a distribuição regional dos profissionais.
Entre as recomendações estão o controle sobre a abertura de cursos, a revisão das regras do ensino a distância e o fortalecimento da fiscalização de estágios e práticas presenciais.