Search

Ministro Adorni enfrenta críticas no Congresso argentino

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O chefe de gabinete de Javier Milei, Manuel Adorni, falou ao Congresso da Argentina nesta quarta-feira (29) pela primeira vez desde que suas viagens de luxo em família e compras.....
Foto: Notícias ao Minuto Brasil

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – O chefe de gabinete de Javier Milei, Manuel Adorni, falou ao Congresso da Argentina nesta quarta-feira (29) pela primeira vez desde que suas viagens de luxo em família e compras de imóveis se transformaram no maior escândalo do governo ultraliberal.

A presença no Congresso deveria ser rotineira, já que a Constituição argentina determina que o chefe de gabinete apresente relatórios mensais ao Legislativo. Esta, no entanto, é a primeira vez que Adorni cumpre a exigência desde sua nomeação, em novembro do ano passado -o que transformou a sessão em uma espécie de interrogatório sobre as suspeitas de enriquecimento ilícito do ministro.

A trilha sonora de um vídeo compartilhado pela equipe de Milei minutos antes da entrada de Adorni resume o clima no Congresso. Na gravação, o presidente argentino aparece em meio a aliados ao som de "Eye Of The Tiger", do filme Rocky Balboa.

Manter o ministro no cargo tem sido uma odisséia parecida com a do protagonista do clássico. Ao lado de Karina, irmã de Milei e secretária-geral da Presidência, Adorni se tornou o membro do gabinete mais rejeitado pelos argentinos -68% o avaliam negativamente, segundo uma pesquisa divulgada nesta semana pela Universidade de San Andrés.

O político foi o que sofreu a maior queda no nível de aprovação em um mês, segundo o levantamento -foram nove pontos percentuais desde a publicação da última pesquisa, em março deste ano. Foi justamente o momento em que o caso teve início, quando veio à tona que sua esposa, Betina Angeletti, havia viajado com a comitiva oficial da Presidência a Nova York, mesmo sem nenhuma função oficial.

Eu queria que ela viesse comigo porque ela é minha companheira. É ela quem me ajuda aqui também

, justificou o ministro na ocasião. "Fui à Nova York a 'deslomarme'", continuou, para dizer que trabalhou muito -nesta quarta, ele foi recebido pela oposição aos gritos de "deslomado", expressão que viralizou na internet, e aplausos do bloco governista.

A viagem da esposa foi a ponta do novelo de uma série de revelações que indicam uma possível inconsistência patrimonial. Dias depois, a descoberta de uma viagem em um jato privado a Punta del Este, no Uruguai, durante o carnaval deste ano, aumentou a pressão sobre o ministro.

Somou-se à investigação revelações como uma viagem com a família às ilhas caribenhas de Aruba, que pode ter ficado entre US$ 14 mil a US$ 15 mil, e a compra de dois imóveis em 2024 e 2025 -uma casa em nome de sua esposa em um condomínio a 80 km de Buenos Aires e um apartamento de US$ 230 mil no bairro de Caballito, na capital.

Os gastos parecem incompatíveis com o atual salário do ministro e sua situação econômica em um passado recente. Em 2023, Adorni pagou um processo judicial de US$ 500 em 12 parcelas, revelou o Clarín, e atualmente ganha US$ 2.500 por mês.

O caso não foi suficiente para Milei o afastar de suas funções, como ocorreu na semana passada com o agora ex-secretário de Coordenação de Infraestrutura do Ministério da Economia Carlos Frugoni, também envolvido em um caso de imóveis não declarados.

Pelo contrário -o presidente estava em um balcão do plenário nesta quarta para assistir à exposição de mais de uma hora de Adorni e chegou a discutir com opositores que protestaram à medida que a fala se alongava.

Vocês são os assassinos. Suas ideias mataram 150 milhões de pessoas

, gritou o ultraliberal a deputados de esquerda.

O discurso do ministro incluiu a conhecida cartilha do governo: elogios a responsabilidade fiscal, abertura econômica, cortes da máquina pública e controle da inflação interrompidos por palmas a cada poucos minutos, quando o político atacava governos anteriores ou apresentava números da gestão.

Ao final, Adorni se antecipou às esperadas contestações sobre o seu patrimônio.

Não cometi nenhum delito e vou provar isso na Justiça — disse.

Sobre a viagem de sua esposa, negou qualquer irregularidade.

Pedi desculpas ao povo argentino, entendendo que minha conduta deve ser sempre transparente, e me coloquei à disposição do sistema judiciário diante de cada denúncia — afirmou.

Já as viagens foram pagas por seu próprio patrimônio, segundo ele.

O governo nacional não possui nenhum registro de custos associados às minhas viagens pessoais — disse.

Ninguém está questionando se você pode gastar o dinheiro, o que estamos questionando é se ele foi ganho legitimamente ou não — afirmou a deputada federal Mónica Frade, ao tomar a palavra após o discurso.

Já o deputado Néstor Pitrola disse que a presença de todo o gabinete era uma prova de que o ministro era um "cadáver político".

Desculpe, mas eu tinha que dizer isso, porque você não conseguiu explicar ao povo argentino o aumento vertiginoso da sua riqueza e da riqueza da sua esposa — concluiu.

Não se sabe por que Milei tem insistido em manter o aliado, que antes de ser chefe de gabinete foi um porta-voz agressivo da Presidência. Fato é que, apesar da vitória nas eleições de meio de mandato em outubro do ano passado e das recentes aprovações de reformas, o presidente não está em seu melhor momento diante dos eleitores.

Em março, a inflação acelerou pelo décimo mês consecutivo, chegando a 3,4% -menor do que os 13% do momento em que Milei assumiu, mas distante das expectativas. A isso se somam as quedas nas atividades de construção civil e na produção industrial, resultando no recuo da popularidade do presidente.

Questionado sobre por que mantinha Adorni no cargo ao sair do Congresso, Milei chamou os jornalistas presentes de "ladrões e corruptos".

PUBLICIDADE

Mais recentes

PUBLICIDADE