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Impactos da Guerra no Oriente Médio nas Commodities Brasileiras

Agronegócio brasileiro. Willam Roth/Secom-RR A guerra travada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã tem lançado incerteza sobre os rumos da economia global. A alta no petróleo, com o bloqueio do Estreito de Ormuz.....
Foto: G1

Agronegócio brasileiro.

Willam Roth/Secom-RR

A guerra travada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã tem lançado incerteza sobre os rumos da economia global. A alta no petróleo, com o bloqueio do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária iraniana e redução na oferta dos países no Golfo Pérsico, já leva analistas a apostarem numa inflação generalizada como uma das consequências do conflito.

Além do petróleo, o choque econômico também atinge em cheio a oferta de fertilizantes, já que cerca de um terço do insumo passa por Ormuz. O Irã, por si só, é um dos maiores exportadores de ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizado por agricultores de todo o mundo.

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O impacto dessa crise nos preços ainda é incerto, mas uma alta nas commodities já vem ocorrendo nas últimas semanas.

O índice CRB, um dos principais termômetros de matérias-primas básicas como petróleo e alimentos, atingiu, a última segunda-feira (09/03), a maior cotação desde 2011. E a tendência, segundo especialistas, é que esse movimento se mantenha, pelo menos enquanto durar o conflito.

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É esse ponto que levanta questões sobre o papel do Brasil nesse cenário. O país é não só o maior produtor de alimentos do mundo, como o sexto maior produtor de petróleo bruto e décimo no ranking de exportadores do combustível fóssil. Tem, assim, grande parte de sua balança comercial dependente de produtos primários.

Foi justamente um incremento na cotação desses itens que gerou o que ficou conhecido como "boom das commodities", a partir do início do século 21 até o começo da década de 2010. O período beneficiou a economia brasileira, contribuindo para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e para a consolidação do país como grande economia exportadora de matérias-primas.

No entanto, de acordo com especialistas consultados pela DW, o cenário atual é distinto. Mesmo assim, existe a possibilidade de que o Brasil se beneficie do contexto causado pelo conflito no Oriente Médio – mas não sem se livrar dos choques.

Fumaça sobe após ataque à refinaria de petróleo da Bapco em Sitra, no Bahrein, em 9 de março de 2026.

REUTERS/Stringer

Um novo boom das commodities?

O fechamento do Estreito de Ormuz tem impactado diretamente na oferta de produtos como petróleo, gás natural e fertilizantes. É uma diferença fundamental em relação ao boom das commodities, basicamente fomentado pelas altas taxas de crescimento da economia da China.

O país asiático registrou, entre 2002 e 2011, uma alta do PIB acima de 9%, propulsionada principalmente pela rápida expansão industrial chinesa. Houve maior demanda por matérias-primas, o que gerou uma oportunidade para o Brasil. Foi durante esse também, em 2009, que a China se tornou o maior parceiro comercial brasileiro.

Mas, desde então, a economia chinesa vem reduzindo as taxas de crescimento e, neste ano, pela primeira vez desde 1991, o país asiático colocou como meta uma alta anual do PIB abaixo dos 5%.

É para lá que o Brasil manda 80% da sua soja, produto brasileiro mais vendido para o exterior, que correspondeu a 34,5% das exportações do país em 2025 – registrando um total de US$ 34,5 bilhões na balança comercial brasileira do ano passado. O país asiático compra ainda 56% do minério de ferro produzido no Brasil e 45% do petróleo bruto.

Um bloqueio mais prolongado no Estreito de Ormuz, com o recrudescimento na guerra no Irã, deverá pressionar para uma alta das commodities agrícolas como efeito cascata a partir do encarecimento dos combustíveis e dos fertilizantes, aliada à incerteza que gera especulação no mercado.

Para a China, por exemplo, o fornecimento de grãos do Brasil deverá ficar no mesmo patamar. Só que, se houver alta dos preços, isso gera uma maior receita. Não é uma coisa muito significativa, mas pode acontecer

, explica Francisco Américo Cassano, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Santa Cecília. "Não vejo como um novo boom, mas como um aumento da exportação", complementa.

Um fator a mais poderá ser causado pelo choque nos fertilizantes: os próximos meses serão cruciais para o início do plantio em países do Hemisfério Norte, o que também pode gerar uma redução na oferta por lá e o redirecionamento das compras para países como o Brasil, onde as safras ocorrem no segundo semestre.

Cassano, no entanto, acredita que as chances de isso ocorrer são menores.

Mesmo porque o Donald Trump não tem tanto interesse desse conflito se alastrar por tanto tempo, porque ele vai sofrer o mesmo problema de inflação dentro dos Estados Unidos

.

Cenários de curto e longo prazo

O fato de estar fora da região de conflito realmente pode fazer com que o Brasil se beneficie do cenário atual, analisa Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB).

O país se torna uma opção de investimento de uma forma geral, exatamente porque está longe das tensões. Tem uma política de se manter distanciado, está longe do ponto de vista geográfico e político e tem várias oportunidades de negócios – na agricultura, na energia e diversos outros setores

, aponta o economista.

Segundo ele, o contexto internacional tende a fazer com o que país siga atraindo investimento direto estrangeiro, fluxo que já vem ocorrendo nos últimos por causa do aumento das incertezas na geopolítica mundial.

É muito provável que os preços da energia e alimentos subam mesmo após o fim da guerra, por causa da mudança climática. Quando você coloca a geopolítica em cima, os efeitos são ainda maiores

, diz Arbache. "Isso tende a ser benéfico no médio e longo prazo, mas de maneira condicionada, porque é um cenário de incertezas", ressalta o professor.

Já no curto prazo, a situação é mais complicada. O aumento da percepção de risco nos mercados pode atingir o risco de crédito e o risco-país, impactando principalmente os países emergentes. A elevação do preço do petróleo e fertilizantes pode afetar a economia brasileira e chegar no consumidor, com choques no valor do frete e dos alimentos, por exemplo.

Mas mesmo uma alta nas commodities, lembra Cassano, com o mercado externo pagando mais caro nos alimentos, por exemplo, deve gerar mais inflação para o consumidor interno.

Os preços tendem a subir também porque o produtor está recebendo mais lá fora e isso impacta diretamente os preços internos, gerando mais inflação

, afirma o professor da Universidade Santa Cecília.

Além disso, os efeitos da guerra no Irã sobre incertezas e decisões de investimento vão continuar, mesmo se o conflito chegar ao fim nas próximas semanas. As retaliações do Irã em países vizinhos no Golfo Pérsico causaram estragos em plantas energéticas e reservatórios em importantes para países como Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita.

Essas nações têm grandes fundos soberanos, que são investidores inclusive no Brasil – muito provavelmente, isso vai fazer com que eles reduzam esses aportes

, pontua Arbache.

Segundo ele, no entanto, mesmo que o cenário ainda seja incerto quanto a previsões, o consumidor poderá voltar a ganhar no longo prazo, com um aumento da atratividade do Brasil que impulsionará a atividade econômica, gerando mais emprego.

Mas, no curto prazo, deve perder, como praticamente todo mundo. É uma guerra com impactos generalizados por causa da globalização. É uma guerra que mirou um alvo e está acertando em vários outros, com múltiplas complicações econômicas

, finaliza o professor da UnB.

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