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Machismo e Política: O Caso de Fillipe Félix e Janja

Fillipe Félix tem todo o direito de não gostar de Lula. Tem o direito de criticar o governo, questionar programas sociais, reclamar de impostos, votar em quem quiser e defender publicamente o candidato que considerar.....
Foto: Polêmica Paraíba

Fillipe Félix tem todo o direito de não gostar de Lula. Tem o direito de criticar o governo, questionar programas sociais, reclamar de impostos, votar em quem quiser e defender publicamente o candidato que considerar melhor para o Brasil.

O que ele não deveria fazer, e ninguém deveria, é transformar divergência política em humilhação contra uma mulher.

Ataque pessoal e machismo no debate político

O proprietário da SAF do Botafogo-PB ultrapassou essa fronteira ao publicar um vídeo nas redes sociais após o primeiro turno das eleições. Ao atacar o presidente Lula, decidiu atingir também sua esposa, Rosângela Lula da Silva, a Janja.

Casou com uma mulher que conheceu na porta de cadeia, que é o mais baixo nível de mulher que eu já conheci — afirmou Fillipe Félix.

Não Há Argumento Político Nessa Frase

Não há argumento político nessa frase. Não há crítica administrativa. Não há discussão econômica. Não há futebol. Há apenas uma tentativa de diminuir uma mulher.

E talvez seja exatamente por isso que o episódio mereça uma discussão muito maior do que Janja, Lula, Fillipe Félix ou Botafogo-PB. Porque conhecemos esse roteiro.

Quando uma mulher ocupa espaço, ganha projeção, fala alto, interfere no debate público ou simplesmente se recusa a cumprir o papel silencioso que alguns esperam dela, rapidamente aparece alguém disposto a explicar que ela é “vulgar”, “sem classe”, “baixo nível”, “mal-educada”, “mandona” ou qualquer outro adjetivo destinado não a discutir suas ideias, mas a colocá-la no seu suposto lugar.

O papel de Janja na política e o combate à violência de gênero

Janja pode e deve ser criticada por suas posições públicas. Como qualquer pessoa com influência política e presença institucional, está submetida ao escrutínio público. Mas Janja também é muito mais do que a esposa do presidente.

Socióloga, ela transformou o papel tradicionalmente decorativo de primeira-dama em uma presença ativa em temas sociais e internacionais. Participou, por exemplo, da Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU, onde levou ao debate temas como igualdade salarial, trabalho doméstico não remunerado e pobreza entre mulheres e meninas.

Também esteve envolvida na defesa da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, uma das principais iniciativas apresentadas pelo Brasil durante sua presidência do G20. Em debates sobre o projeto, Janja defendeu políticas de transferência de renda, alimentação escolar e proteção às mulheres em situação de vulnerabilidade.

Mais recentemente, assumiu presença ativa na agenda de enfrentamento à violência contra as mulheres. Em 2026, participou da apresentação do Pacto Brasil contra o Feminicídio, iniciativa de articulação entre Executivo, Legislativo e Judiciário para fortalecer ações de proteção a mulheres e meninas.

Pode-se concordar ou discordar da atuação dela. Isso se chama democracia. O que não se chama democracia é recorrer à humilhação pessoal quando faltam argumentos. E existe algo particularmente simbólico em atacar dessa maneira justamente uma mulher que tem usado parte de sua exposição pública para discutir violência de gênero.

Em março deste ano, Janja revelou publicamente que já havia sofrido assédio mesmo sendo primeira-dama e cercada por estrutura de segurança. Ao relatar os episódios, usou sua própria experiência para chamar atenção para a vulnerabilidade enfrentada diariamente por milhões de brasileiras.

Machismo e a importância de responder

Por isso, quando alguém com dinheiro, poder e milhares de pessoas acompanhando suas redes sociais classifica uma mulher como sendo do “mais baixo nível”, a discussão não deveria se resumir a saber de qual partido ela é.

Porque amanhã pode não ser Janja. Pode ser uma jornalista. Pode ser uma política. Pode ser uma empresária. Pode ser uma torcedora. Pode ser uma funcionária dentro de uma empresa. Pode ser qualquer mulher que tenha ousado falar mais alto do que alguém gostaria.

O problema do machismo é exatamente esse: ele tenta convencer a sociedade de que cada episódio é isolado. Uma “brincadeira”, uma frase dita de cabeça quente, uma provocação política. Não é.

Mulheres passaram décadas ouvindo que deveriam baixar a cabeça, cuidar da aparência, controlar o tom de voz, sorrir mais, falar menos e aceitar julgamentos que dificilmente seriam direcionados a homens na mesma posição.

E talvez por isso seja tão importante responder. Não apenas por Janja. Por todas nós. Por cada mulher que já teve sua inteligência substituída numa discussão por um comentário sobre sua aparência.

Por cada mulher que apresentou um argumento e recebeu uma ofensa. Por cada mulher que conquistou um espaço e ouviu que só chegou ali por causa de algum homem.

Por cada mulher chamada de “baixo nível” simplesmente porque alguém decidiu que tinha autoridade para medir o seu valor.

Responsabilidade pública e respeito

Fillipe Félix administra uma das instituições esportivas mais tradicionais da Paraíba. O Botafogo-PB pertence afetivamente a milhares de paraibanos e paraibanas muito antes de qualquer SAF, investidor ou proprietário chegar ao clube.

Com projeção pública vem responsabilidade. Isso não significa exigir silêncio político de empresário algum. Significa exatamente o contrário: que ele exponha suas ideias, apresente seus argumentos e sustente aquilo em que acredita.

Mas ideias são enfrentadas com ideias. Políticas públicas são enfrentadas com números. Governos são enfrentados com críticas. Mulheres não precisam ser enfrentadas com humilhação. Janja continuará podendo ser criticada. Assim como continuará podendo ocupar espaços, defender suas pautas e exercer a influência pública que possui.

E nós, mulheres, continuaremos discordando umas das outras sobre política, religião, comportamento, futebol e praticamente tudo mais. Mas existe uma linha que deveria nos unir independentemente de qualquer lado político: nenhuma mulher precisa provar que é de “alto nível” para merecer respeito.

Respeito não é prêmio. É o mínimo.

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