O Evangelho do Primeiro Domingo da Quaresma, segundo Mateus (4, 1-11), descreve Jesus sendo conduzido pelo Espírito Santo ao deserto logo após seu batismo no Rio Jordão. Este evento é frequentemente comparado à jornada do povo de Deus no Antigo Testamento, quando, após a travessia do Mar Vermelho, eles foram guiados por uma luz através do deserto em direção à Terra Prometida.
A narrativa bíblica destaca que o povo de Deus não partiu de palácios ou terras férteis, mas era formado por grupos despojados, sem terra e autonomia, vivendo de trabalhos explorados, como migrantes no Egito. Esta jornada é vista sob diversas perspectivas: geográfica, política, existencial e espiritual, simbolizando a transição da escravidão para a liberdade.
O deserto é descrito como um local de formação, busca de identidade e aprendizado do essencial. Ali, superaram a idolatria, partilharam o maná e assumiram compromissos com Deus. É um espaço de desejo por felicidade, moradia digna e existência plena. Além disso, é um lugar de tentações e de respostas a elas, onde Jesus, mesmo com fome, rejeita a ideia de usar seu poder para atender necessidades pessoais, preferindo enfrentar as injustiças.
A segunda tentação desafia Jesus no contexto religioso, onde o demônio utiliza a Sagrada Escritura e o Templo para tentar criar um espetáculo. Jesus, no entanto, promove uma espiritualidade autêntica, sem ego inflado, em contraste com os líderes religiosos da época, que transformaram a fé em um teatro que apenas servia para inflar egos.
Na terceira tentação, o diabo oferece a Jesus todos os reinos do mundo em troca de adoração, refletindo a lógica imperialista de poder absoluto. Jesus rejeita esse desvio de caráter, que é marcado por ambição e arrogância, mostrando que ser de Deus é despojar-se e não buscar grandeza ou supremacia.
Jesus, do deserto à cruz, exemplifica um caminho de serviço e humildade. A vida é uma jornada contínua, e o Evangelho chama à libertação e à vida plena. As tentações nos convidam a não parar na egolatria, mas a seguir o sopro do Espírito de Deus, renunciando ao que nos afasta do Reino de Deus.