Pesquisas recentes apontam que os medicamentos agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, conhecidos popularmente como "canetas emagrecedoras", podem ter um papel na redução do risco de progressão de certos tipos de câncer. Esses medicamentos, já reconhecidos por seus benefícios no tratamento da obesidade e diabetes tipo 2, demonstraram efeitos promissores em tumores de mama, intestino, pulmão e fígado.
A obesidade é um fator de risco conhecido para diversos tipos de câncer, e a perda de peso, como a obtida por meio da cirurgia bariátrica, já havia mostrado impacto positivo na prevenção da doença. Com a popularização dos agonistas de GLP-1, pesquisadores começaram a investigar se esses medicamentos poderiam oferecer benefícios semelhantes.
Os agonistas de GLP-1 são utilizados para controlar a glicemia, reduzir o apetite e favorecer a perda de peso. O nutrólogo Diogo Toledo, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que "o câncer é uma doença metabólica" e que melhorar o ambiente metabólico e reduzir a inflamação associada à obesidade pode ter implicações na oncologia.
Um estudo de 2024, publicado no JAMA Network Open, analisou mais de 1,6 milhão de pessoas com diabetes tipo 2 e encontrou uma associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e uma menor probabilidade de desenvolver alguns tipos de câncer relacionados à obesidade. Mais recentemente, durante o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), pesquisadores investigaram se essas medicações poderiam influenciar a evolução da doença em pacientes já diagnosticados.
O estudo analisou dados de 12.112 pacientes com sete tipos de tumores associados à obesidade, em estágios iniciais ou localmente avançados. Os resultados mostraram que, em quatro dos sete tipos de câncer avaliados, os pacientes que utilizavam agonistas de GLP-1 apresentaram menor risco de desenvolver metástases. No câncer de pulmão, 10% dos usuários dessas medicações evoluíram para doença metastática, em comparação a 22% entre aqueles tratados com outras drogas para diabetes.
Os percentuais para câncer de mama foram de 10% contra 20%, e no câncer colorretal, 13% contra 22%. Nos tumores de fígado, a progressão ocorreu em 19% dos usuários de agonistas de GLP-1, comparados a 28% do grupo controle. Isso representa uma redução de 38% a 50% no risco de progressão para doença metastática.
Entretanto, não é possível afirmar que os benefícios sejam decorrentes de uma ação direta dos medicamentos sobre os tumores, ou se são consequência indireta da perda de peso e da melhora do metabolismo. Toledo ressalta que, apesar da falta de evidências mais sólidas, é significativo observar o menor risco de evolução para formas mais avançadas da doença em alguns tipos de câncer.
Os resultados, no entanto, não são uniformes entre todos os tipos de câncer. Tumores urológicos, como os de próstata e rim, não mostraram benefícios significativos. O oncologista André Paternò, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que a evolução do câncer de próstata é mais lenta e influenciada por fatores hormonais e heterogeneidade entre os pacientes.
As limitações das evidências atuais incluem o fato de muitos estudos serem retrospectivos, o que dificulta estabelecer relações de causa e efeito. Paternò alerta que os pacientes que utilizam essas medicações frequentemente têm acompanhamento médico mais frequente, o que pode influenciar os resultados.
Além disso, as pesquisas ainda não abordaram questões importantes da prática clínica, como o impacto dos medicamentos em pacientes que recebem quimioterapia ou imunoterapia. Paternò enfatiza que, apesar das promessas, a utilização dessas medicações deve ser feita com acompanhamento médico e não deve ser iniciada com o objetivo de prevenir ou tratar câncer.
Por fim, especialistas concordam que a composição corporal é crucial. A redução da gordura corporal, aliada à preservação da massa muscular, é fundamental para melhores resultados em pacientes com câncer. A perda de peso rápida e a redução da massa muscular podem ter efeitos prejudiciais, especialmente em pacientes oncológicos.