Um estudo elaborado pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e entregue ao governo da Venezuela em 2005 alertou sobre vulnerabilidades sísmicas na região de Caracas. O relatório, que foi solicitado pelo próprio governo venezuelano, recomendava uma série de medidas para reduzir os impactos de terremotos, incluindo o reforço estrutural de cerca de 180 mil edifícios.
As recomendações do estudo ganharam destaque na imprensa local após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o norte da Venezuela em 24 de junho. Até o dia 6 de julho, o governo venezuelano registrou 3,5 mil mortos, 16 mil feridos e o desabamento de 190 edifícios, enquanto equipes de resgate ainda buscavam centenas de desaparecidos.
O relatório da JICA, que avaliou os riscos sísmicos da área metropolitana de Caracas, propôs 20 projetos para mitigar danos causados por terremotos e deslizamentos de terra, sendo sete deles considerados prioritários. Entre as principais recomendações estavam o fortalecimento de pontes, a construção de barragens para conter fluxos de lama, a instalação de sistemas de alerta para a população e o reassentamento de comunidades em áreas de alto risco.
A implementação das medidas sugeridas no relatório custaria cerca de US$ 2,8 bilhões ao longo de 16 anos, com aproximadamente US$ 2,6 bilhões destinados ao reforço dos edifícios. No entanto, não está claro quantas dessas recomendações foram efetivamente colocadas em prática pela Venezuela.
Especialistas afirmam que as condições das construções no país contribuíram para o elevado número de prédios destruídos nos recentes terremotos. Muitos edifícios foram construídos rapidamente durante a expansão de programas habitacionais nas últimas décadas, com fiscalização limitada e pouca transparência. Além disso, anos de negligência no cumprimento das normas de construção e a crise econômica reduziram a capacidade técnica do país.
O relatório também simulou os efeitos de diferentes terremotos em Caracas. Em um cenário semelhante ao tremor de 1967, de magnitude 6,6, a projeção era de cerca de 10 mil edifícios gravemente danificados, com 602 mortos e mais de 4,3 mil feridos. Já em uma simulação baseada no terremoto de 1812, de magnitude 7,1, a estimativa subia para mais de 32 mil edifícios gravemente danificados, 2.528 mortos e 17,6 mil feridos.
Os técnicos japoneses concluíram que a adoção do programa de reforço estrutural poderia reduzir significativamente esses impactos. Por exemplo, no cenário baseado no tremor de 1812, o número de edifícios gravemente danificados poderia cair de 32 mil para 5.260, e a estimativa de mortes seria reduzida em quase 90%, passando de 2.528 para 274.
O estudo detalhou técnicas de engenharia para aumentar a resistência das construções, incluindo a instalação de paredes estruturais e o reforço de colunas e vigas. Para áreas de ocupação informal, o plano sugeriu medidas de menor custo, como a construção de vigas de fundação e o reforço de paredes.
Antes de qualquer intervenção, os técnicos recomendavam a realização de inspeções para identificar quais edifícios precisariam de reforço e qual seria a solução mais adequada.