A morte de toneladas de peixes no Açude Velho, um dos mais icônicos cartões-postais de Campina Grande, acendeu um alerta urgente sobre a qualidade da água que abastece o reservatório. Um estudo detalhado da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) aponta que a principal causa da tragédia ambiental reside na degradação avançada do Canal das Piabas, seu afluente mais significativo. A pesquisa não apenas revela a complexa teia de fatores que transformaram um outrora vital riacho em um vetor de poluição, mas também sublinha a necessidade crítica de intervenções para salvaguardar a saúde do ecossistema e da população local.
Do Riacho Natural ao Canal Poluído: A Metamorfose das Piabas
O que hoje é conhecido como Canal das Piabas teve sua origem como um riacho natural, batizado por abrigar diversas espécies de peixes pequenos, as piabas, e era um local tradicional de pesca. A pesquisadora Gabriele Souza, responsável pelo estudo da UFCG, explica que o processo de urbanização desordenada, especialmente a partir da década de 1980 com a instalação de moradores em suas margens, alterou drasticamente suas características. A construção do canal, parte de um projeto de urbanização da área, não foi acompanhada de infraestrutura de saneamento adequada. A ausência de redes de esgoto e fossas sépticas resultou no despejo direto de efluentes sanitários no curso d'água, transformando-o gradualmente em um foco de contaminação.
Impactos Devastadores: Ecossistema e Comunidades Ameaçadas
A contaminação contínua do Canal das Piabas gerou consequências ambientais severas. Análises realizadas pela pesquisadora Gabriele Souza revelaram níveis de oxigênio próximos de zero na água, tanto em períodos chuvosos quanto secos. Essa condição torna o ambiente inviável para a maioria das espécies aquáticas, explicando a ausência de peixes e a proliferação de bactérias anaeróbicas, evidenciando a perda irreversível da biodiversidade original do riacho. Atualmente, a água poluída do canal segue um percurso dividido: parte é direcionada para uma cachoeira na Zona Leste, que deságua no Rio Paraíba, mas uma parcela considerável continua a escoar diretamente para o Açude Velho, contribuindo decisivamente para a degradação e a recente mortandade de peixes.
Além do impacto ecológico, a poluição afeta diretamente as comunidades que residem nas proximidades do canal. Moradores relatam uma série de problemas de saúde, atribuídos à contaminação por bactérias presentes nos efluentes sanitários sem tratamento. A situação é agravada pela ocorrência frequente de inundações durante períodos de chuvas intensas, que não apenas causam prejuízos materiais, mas também representam um risco letal, com relatos de fatalidades por pessoas arrastadas pela força das águas. A falta de saneamento básico e as condições insalubres comprometem profundamente a qualidade de vida dessas populações.
A Urgência de Adequação para um Futuro Sustentável
Diante do cenário crítico, o estudo da UFCG reitera a necessidade imperativa de adequação do Canal das Piabas. Essa recomendação transcende uma simples medida corretiva, configurando-se como um passo fundamental para a recuperação ambiental do Açude Velho e para a melhoria das condições de vida das comunidades adjacentes. A intervenção é crucial não apenas para conter o fluxo de poluição que alimenta o reservatório, mas também para mitigar os riscos de saúde e segurança enfrentados pelos moradores, transformando um vetor de degradação em um elemento reintegrado de forma saudável ao ambiente urbano e natural de Campina Grande.
A preservação do Açude Velho e a proteção da saúde pública dependem diretamente da implementação de soluções abrangentes de saneamento e gestão ambiental para o Canal das Piabas. O episódio da mortandade de peixes serve como um lembrete contundente da interconexão entre o desenvolvimento urbano e a sustentabilidade ambiental, exigindo uma ação coordenada e imediata para reverter os anos de negligência e garantir um futuro mais promissor para a região.
Fonte: https://g1.globo.com