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Cuidado na discussão sobre saúde mental nas redes sociais

O psiquiatra Felipe Santaella discute a importância de abordar saúde mental nas redes sociais com responsabilidade, evitando simplificações e desinformação.
Foto: Golpe por celular - Metrópoles

As redes sociais se tornaram um espaço central para a discussão sobre saúde mental, onde sintomas, diagnósticos e relatos pessoais são compartilhados diariamente. No entanto, especialistas alertam para os riscos de comunicar temas complexos de forma simplificada, o que pode levar a interpretações equivocadas.

O psiquiatra Felipe Santaella, consultor externo do Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde, abordou essa questão durante o Brain Congress 2026, realizado em Porto Alegre. Ele destacou como o ambiente digital influencia a compreensão do sofrimento psíquico e dos transtornos mentais, ressaltando que a internet se tornou uma extensão da vida cotidiana.

Com mais de 92% da população brasileira conectada à internet e cerca de 88% utilizando redes sociais, o Brasil se destaca no consumo de conteúdo digital, com uma média de nove horas diárias de conexão. As plataformas digitais não são apenas locais de entretenimento, mas também de compartilhamento de experiências e interpretações sobre saúde mental.

Santaella introduziu o conceito de "efeito looping", que descreve como diagnósticos podem moldar a autoimagem de um indivíduo. Ele explicou que, ao receber um diagnóstico, a pessoa não apenas lida com a avaliação médica, mas também com as informações disponíveis na cultura e nas redes sociais. Isso pode influenciar comportamentos e a percepção de familiares e instituições.

O psiquiatra citou exemplos de crianças diagnosticadas com transtornos como o espectro autista, onde o diagnóstico pode ser visto como a única explicação para dificuldades, limitando a compreensão das complexidades do desenvolvimento infantil.

Além de promover acolhimento, as redes sociais também podem disseminar informações incorretas. Santaella apresentou pesquisas que indicam que mais da metade do conteúdo sobre autismo nas plataformas digitais contém desinformação ou estigmatização. Os conteúdos mais engajados frequentemente são os que apresentam informações problemáticas.

Ele também alertou sobre comunidades virtuais que discutem saúde mental com categorias próprias, que podem divergir das classificações médicas. Embora esses espaços ajudem no compartilhamento de experiências, eles podem levar a interpretações errôneas sobre sintomas e diagnósticos.

Para Santaella, um dos principais desafios na comunicação sobre saúde mental é evitar que conteúdos curtos sejam vistos como diagnósticos definitivos. Ele enfatizou que postagens nas redes sociais devem ser um ponto de partida para reflexão e busca por ajuda, não substituindo consultas profissionais.

Em fevereiro, o Ministério da Saúde promoveu um encontro com especialistas e influenciadores digitais para discutir a comunicação sobre saúde mental online, resultando na elaboração de um guia de boas práticas que será publicado em breve. Ao final de sua palestra, Santaella resumiu o desafio atual:

Talvez tudo o que a gente precise não seja falar mais sobre saúde mental, mas falar melhor

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