A produção de cachaça na Paraíba não abrange somente engenharia e agricultura, mas também história, economia, orgulho cultural e turismo, ou seja, envolve a identidade paraibana. O Estado é um dos maiores produtores de cachaça de alambique do Nordeste, destacando-se pela qualidade artesanal, especialmente na região de Areia, além de outras cidades do Brejo paraibano como Alagoa Grande e Bananeiras, alcançando inclusive municípios do litoral, como Mamanguape (litoral norte) e Conde (litoral sul).
A bebida é uma herança da colonização, já que veio dos antigos engenhos de cana-de-açúcar que garantiram o poder político e econômico da Paraíba entre os séculos XVI e XVIII. Algumas marcas conhecidas hoje datam do século XIX como Rainha (Bananeiras – 1877 ),e Gregório (Alagoa Grande – 1886/1887). E ao longo do tempo outras marcas foram ganhando prestígio, seja pela tradição como a Ipueira (Areia – 1936) e a Bandeira Branca (Mamanguape- 1940) ou pelo fluxo turístico como Tambaba (Conde), Triunfo (Areia) e Saboeiro (Areia).
De acordo com a Associação Paraibana dos Engenhos de Cachaça de Alambique (ASPECA), o setor gera mais de 22 mil empregos na Paraíba e tem um faturamento anual de mais de R$ 1 bilhão. Além disso, hoje a bebida está associada ao turismo de experiência, principalmente com os roteiros turísticos nos engenhos e a Rota Cultural Caminhos do Frio.
Antigamente,não existia um controle de qualidade, mas medida que os engenhos foram melhorando e a fiscalização se tornando mais rigorosa, o produto subiu de categoria e agora a cachaça paraibana assim como acontece com a de Minas Gerais, também tem uma história reconhecida — declarou o presidente da Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA), Joaquim Cavalcanti.
A bebida surgiu nos engenhos de açúcar entre os séculos XVI e XVII, como um subproduto da produção de açúcar. Foi consumida por pessoas escravizadas no Brasil Colônia e utilizada como moeda de troca no tráfico negreiro. Ao longo dos anos, se tornou um ativo com preços variados (entre R$8 e até mais R$270), atraindo investidores e produtores empenhados em popularizar o produto como item de exportação. Nos últimos anos, tem havido um crescente interesse pela cachaça em diversos mercados internacionais e segundo o presidente da APCA, a cachaça paraibana ainda é pouco exportada, mas alguns engenhos já começaram um movimento pensando no futuro do setor.
Estamos nos adequando para buscar esse mercado mundial com foco na Europa e Estados Unidos. A cachaça produzida na Paraíba é consumida cerca de 80% dentro da própria Paraíba e as fronteiras que ela mais cruza por enquanto são para os Estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte, além de cidades do Sul e Sudeste
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De acordo com a diretora executiva do Engenho Triunfo, Maria Júlia Baracho, a cachaça paraibana se diferencia porque os produtores estão determinados a produzir menos com foco na quantidade e mais pensando na qualidade. Ela lembra que os trabalhadores do setor estão percebendo as novidades do mercado e se preparando para atender um consumidor cada vez mais exigente.
O grande boom foi aderir a produção da cachaça associada ao turismo, porque o cliente se identifica com a história daquela cachaça, vê de perto o processo de produção e entende como um participante ativo daquele produto
, acrescenta.
A qualidade artesanal e a tradição tornaram diversas marcas populares, mas o reconhecimento veio com a modernização dos engenhos e avanços como opções premium, novos designs das garrafas, cachaças envelhecidas e brancas, controle de qualidade (eliminando metanol e substâncias indesejadas), estratégias de marketing, entre outras inovações. Para o presidente, a profissionalização do setor ajudou na transição entre uma “bebida de escravizados” para o status de um “presente de luxo”. Outra novidade é que hoje o setor tenta se adequar ao público jovem principalmente com o lançamento de bebidas mistas gaseificadas derivadas da cachaça (“ices”), com sabores como frutas vermelhas, maracujá e outros.
Entre as marcas premiadas nacional e internacionalmente estão as cachaças Serra Limpa (Duas Estradas); Matuta (Areia); Baraúna (Alhandra); Triunfo (Areia); Volúpia (Alagoa Grande) e Cigana/São Paulo (Cruz do Espírito Santo). Além disso, o ranking divulgado pelos especialistas do grupo Cúpula da Cachaça registrou marcas paraibanas como Baraúna, Nobre (Cruz do Espírito Santo), Boa do Brejo ( Alagoinha), Turmalina da Serra (Areia) e Arretada (Cruz do Espírito Santo) como destaques de 2026.
Consumidor mais exigente
Por trás de cada garrafa existe um processo que envolve não apenas técnicas e ingredientes, mas também uma série de características geográficas, valores e tradições que influenciam diretamente na produção da cachaça local e mudaram o perfil de quem consome o produto. Segundo Maria Júlia, o atual consumidor da cachaça hoje é o intelectual, o nacionalista, é a pessoa que gosta de apreciar uma bebida destilada mais forte e de qualidade.
O paladar do consumidor de cachaça hoje é muito mais apurado. Ele quer identificar os aromas, o gosto, o retrogosto de cada cachaça. Ele entende o trabalho do produtor que passou anos produzindo aquela cachaça
, lembrou a empresária.
Existem aqueles que inclusive fazem cursos de sommeliers pensando na harmonização da bebida com gastronomia refinada. Para o presidente da APCA isso significa que a cachaça saiu da clandestinidade e de uma posição antes marginalizada, para um item rigorosamente controlado no seu sabor e qualidade.
O setor cresceu e o público também aprecia o produto e muitos fazem questão de colocar uma boa cachaça na mesa
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Brejo e Turismo de experiência
O Brejo paraibano é tradicionalmente reconhecido na destilação artesanal de cachaça e ao longo dos anos os produtores da região vem investindo no turismo de experiência, especialmente nos engenhos Triunfo (Areia), Volúpia (Alagoa Grande) e Vaca Brava (Cachaça Matuta em Areia). Os passeios incluem visitas guiadas, degustação (cachaças, petiscos, sorvetes, etc) e história.
O Engenho Triunfo é um dos mais visitados do Estado: no ano de 2024, contabilizamos 23% a mais de turistas do que o ano de 2023 (apesar do incêndio). Em 2025, chegamos a crescer 70% a mais do que 2024 no fluxo turístico
, descreveu Maria Júlia.
A cidade de Areia é considerada a “Capital Paraibana da Cachaça”, concentrando diversos engenhos e atraindo turistas para o turismo rural. A APCA possui 11 associados na região e segundo o representante da entidade, a história da cachaça se une à história da Paraíba, especialmente em Areia cuja relação com a bebida possui mais de 100 anos.
A nível de produção nacional, a Paraíba está entre os melhores produtores de cachaça do Brasil, junto com estados como Minas Gerais. Contamos com engenhos de grande porte. E Areia representa praticamente 70% da cachaça produzida no Estado. É uma cidade pequena, mas com uma capacidade produtiva grande
, ressalta Joaquim Cavalcanti.
Eventos
Em 2026, um dos principais eventos de valorização da produção artesanal da cachaça é o Festival Cultural e Gastronômico Caminho dos Engenhos na Paraíba que ocorre durante os finais de semana do mês de maio. O projeto envolve nove engenhos nos municípios de Areia, Bananeiras e Alagoa Grande. Em Areia, participam os engenhos Saburá, Saboeiro, Triunfo, Matuta, Dom Marcos e Ipoeira. Em Alagoa Grande, integram o festival os engenhos Volúpia e Gregório. Já em Bananeiras, o roteiro contempla o Engenho Rainha.
Em Areia, acontece ainda o “Areia Mostra Cachaça”, entre os dias 20 e 22 de agosto. Além deste, nos dias 28 e 31 outubro, João Pessoa recebe o “Brasil Cachaças 2026”, Seminário e Feira das Melhores Cachaças do Brasil. O evento acontece no Espaço Cultural José Lins do Rego, no bairro Tambauzinho, reunindo toda a cadeia produtiva do setor.