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A Mobilização por Neymar na Seleção Brasileira para 2026

Se Luiz Felipe Scolari quase foi agredido por torcedores em manifestação a favor da convocação de Romário em 2002, em um dos episódios mais extremos do clamor popular pré-convocação para a Copa, o apelo por Neymar em.....
Foto: Vitor Silva / CBF

Se Luiz Felipe Scolari quase foi agredido por torcedores em manifestação a favor da convocação de Romário em 2002, em um dos episódios mais extremos do clamor popular pré-convocação para a Copa, o apelo por Neymar em 2026 encontra eco dentro da própria seleção de Ancelotti.

A mobilização atual pela presença de um craque na Copa tem um caráter diferente. Não é nem se a maioria da torcida — que catapulta opinião nas redes sociais — quer ou não. Neymar é o mais defendido publicamente pelos pares, algo que não se viu com tanta força a respeito de Romário e acontece pela primeira vez nessa intensidade na história da seleção.

Termos jogadores assim de seleção pedindo um jogador é algo que não me lembro de já ter acontecido

, diz o jornalista e pesquisador Roberto Assaf, autor do livro “Seleção Brasileira (1914 – 2006) – O livro oficial da CBF”.

Já houve clamor popular, cobrança de imprensa. Em 2010, com o Ganso e o próprio Neymar, houve um movimento grande. O (treinador Cláudio) Coutinho não levou, na Copa de 78, o Paulo Roberto Falcão, o Luís Pereira. Agora, de jogador pedindo pela convocação de outro jogador, da forma como está acontecendo, realmente não consigo me lembrar

, completa Assaf.

O técnico Carlo Ancelotti anuncia a lista de 26 jogadores nesta segunda-feira (18), a partir das 17h (horário de Brasília), no Rio de Janeiro.

Marquinhos, Casemiro e Raphinha, líderes de uma geração que pode ter a última oportunidade de conquistar a Copa, defendem aquele que por anos canalizou as atenções, mas virou dúvida a partir do momento em que passou a lutar para ficar saudável.

Se Neymar é um amigo, na visão de Marquinhos e Casemiro, também usufrui do papel de ídolo, como Raphinha, João Pedro e outros mais jovens já mencionaram.

Casemiro jogou com Neymar desde as seleções de base. Eles estavam no grupo campeão do Sul-Americano sub-20 de 2011, por exemplo. Marquinhos e Neymar foram companheiros de anos no Paris Saint-Germain. Raphinha guarda com carinho um par de chuteiras que Neymar deu de presente e já disse que o camisa 10 o abraçou na chegada à seleção.

Os jogadores extraclasse são admirados por todos. Eu admirava Romário, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho. Estando em campo, eles vão fazer a diferença. Jogar com esses caras de qualidade técnica absurda é diferente. Só que na minha geração, tinha mais divisão. Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo… Dividia-se mais a responsabilidade. Nessas gerações, é o Neymar esse cara diferente. É o único nesse nível de jogador

, analisa o pentacampeão Juninho Paulista, que foi coordenador da seleção na Copa de 2022.

O efeito pisológico

Além desse ponto, há um aspecto psicológico em ter Neymar no grupo. Uma espécie de autoproteção da classe e de uma figura admirada.

Uma equipe eficiente se forma com um somatório de fatores, incluindo forças (atributos emocionais) e virtudes. Sem esquecer das características em situações decisivas e de pressão. Existe um movimento social dentro de equipes que é proteger o seu parceiro que recebe críticas e julgamentos, por vezes, injustamente. Talvez aí esteja mais um ponto a se pensar sobre a defesa de tantos jogadores ao Neymar. Um grupo pode exercer a cooperação para oportunizar seus aliados

, analisou a psicóloga esportiva Michelle Rizkalla.

Neymar vive o segundo clamor pelo seu nome antes de uma Copa do Mundo. Mas diferentemente de 2010, quando era um talento em ascensão e foi deixado de lado por Dunga, agora ele tem uma carreira e um histórico de mais de uma década de protagonismo na seleção a seu favor.

Dunga também sofreu pressão por convocar Ronaldinho Gaúcho e Adriano em 2010, mas ela vinha mais de fora do que de dentro do próprio elenco. Além disso, no grupo já tinha Robinho e Kaká. Em 2014, o astro da geração já era Neymar.

Alguns atletas desse nível passam a ser uma representatividade do ‘bom futebol’ que o país já teve e, independentemente da condição atual, podem exercer um papel importante na equipe diante dos mais jovens e dos adversários. É necessário também avaliar a composição do elenco. Idade, experiência em seleção, repertório emocional em situações de pressão para entender as necessidades da equipe e quais atletas poderiam ajudar em suas características específicas. Em muitas seleções, há um atleta mais experiente, mais irreverente, mais ousado, o que pode equilibrar forças e até mesmo, dependendo desses fatores acima, gerar segurança

, acrescentou a psicóloga Michelle Rizkalla.

Para Assaf, o clamor atual é mais comparável com a de Falcão em 78. Naquele ano, o meio-campista do Internacional foi deixado de lado pelo técnico Cláudio Coutinho depois de dar declarações dizendo que gostaria de ver Rubens Minelli, seu treinador no Internacional, no comando da seleção.

Esse chamamento pelo Neymar me lembra muito o do Falcão de 78. Tem que levar, tem que levar. Naquela época as opiniões eram todas favoráveis a levar. É engraçado que nesta segunda-feira (18) tem muita opinião a favor e muita opinião contra na torcida, é dividido

, lembra.

Embora não tenha sido eleito melhor do mundo — já que é contemporâneo ao auge de Messi e Cristiano Ronaldo—, Neymar se tornou o maior artilheiro da seleção em jogos oficiais – 79 gols em 125 jogos. Passou Pelé, que balançou as redes em 77 ocasiões.

Pode fazer sentido que jogadores sejam a favor de Neymar porque enxerguem nele algo que vai além do rendimento recente: confiança coletiva, liderança informal, intimidação simbólica ao adversário, memória de decisão, identidade de grupo e segurança emocional em jogos grandes. Mas isso não significa que a convocação seja automaticamente correta. O ponto central é o encaixe psicológico e funcional: se Neymar entra como alguém que fortalece o grupo, aceita seu papel e ainda oferece diferencial técnico, sua presença pode ter valor enorme. Se entra como foco de dependência, tensão ou desequilíbrio, o efeito pode ser o oposto — disse a psicóloga esportiva Priscila Mendes, que trabalha no Inter de Minas.

Como Neymar cativou o grupo

A última presença com a amarelinha foi justamente no dia em que sofreu a lesão mais grave da carreira, contra o Uruguai, em 17 de outubro de 2023.

Desde então, começou uma saga para recuperação completa. Dorival Júnior chegou a convocá-lo para os jogos contra Colômbia e Uruguai, mas Neymar, já no Santos, foi cortado por lesão.

Com a chegada de Ancelotti e a proximidade à Copa, o esforço passou a ser mostrar serviço ao italiano, contando com o apoio público de jogadores relevantes no grupo, que vai além do aspecto técnico.

“Ele é muito querido por todos. Quando eu estive mais próximo, deu para ver que era respeitado e dava esse respeito. Ele é gente boa com todo mundo. É muito competitivo, mas respeitador. Cobra em campo, quer que toque a bola para ele, porque ele quer estar toda hora participando.

Ele apoia os caras. Não tem vaidade entre os outros jogadores. Talvez até porque ele saiba que tecnicamente é absurdo”, disse Juninho, já sobre o ciclo do grupo comandado por Tite.

Em um mundo mais analógico, em 2002, Felipão precisava se proteger de confusões na porta da sede da CBF, por exemplo. Mas dentro do grupo, segundo quem fazia parte da seleção na época, o assunto Romário não era debatido entre os jogadores.

Não que eles desconhecessem as pressões pelas quais Felipão passava. Mas a geração na ocasião estava mais concentrada em garantir a própria vaga na Copa do que necessariamente se reunir ao redor de quem tinha sido o nome do tetra oito anos antes.

Alguns viviam a expectativa de também serem convocados. Era o meu caso. Apesar de ter participado de vários jogos durante as Eliminatórias, eu não me sentia tão dentro assim. Então, vivi a minha expectativa de estar na lista. Era uma decisão mais técnica, da comissão técnica. Tivemos Eliminatórias, uma tensão até o final. O que a gente ficava era de espectador também. Pelo menos comigo, não teve pergunta ou situação entre os jogadores. Era uma decisão do Felipão e ninguém comentava

, acrescentou Juninho.

Nas voltas que o futebol dá, agora, até Romário aumenta o coro por Neymar na Copa.

Você tem que ter um craque. Dizem que na Copa de 66 a Inglaterra ganhou ‘roubado’. Discordo, tinha um time excelente. Tem que ter jogadores que são fora de série. A Inglaterra tinha Bobby Charlton, a segunda colocada Alemanha tinha Beckenbauer. A terceira colocada que foi Portugal tinha Eusébio e a quarta colocada que foi a União Soviética tinha Yashin como goleiro. Messi tem quase 40 anos e vai para a Copa agora. É muito difícil você ganhar um campeonato sem ter um grande destaque, é uma exceção

, aponta Assaf.

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