Em um ambiente marcado pela violência, a fé se torna um refúgio para os envolvidos no narcotráfico mexicano. Traficantes frequentemente se apegam a santos de causas impossíveis e criam símbolos próprios para proteger suas ações e sobrevivência. A recente operação que resultou na morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, ex-líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), destacou a presença de objetos religiosos em esconderijos e residências de chefes do crime. Relatos indicam que na casa onde El Mencho passou seus últimos momentos foram encontrados itens devocionais, incluindo imagens de Jesus e da Virgem Maria, além de registros de sua devoção a São Judas Tadeu.
A devoção dos cartéis revela uma intersecção entre crime, cultura e espiritualidade. Para muitos, a figura de Deus tradicional pode parecer punitiva, enquanto os chamados 'narco-santos' oferecem proteção sem julgamento moral. Nesse contexto, a fé se torna uma ferramenta funcional para sobreviver em um cotidiano repleto de violência e traição. Ao contrário do estereótipo de criminosos materialistas, muitos membros de cartéis se consideram profundamente religiosos, utilizando a espiritualidade como um escudo psicológico.
Os 'narcosantos' mais cultuados incluem São Judas Tadeu, conhecido como padroeiro das causas difíceis, e a Virgem de Guadalupe, a figura religiosa mais venerada no México. Jesús Malverde, uma figura folclórica não reconhecida pela Igreja Católica, é amplamente venerado, especialmente em Culiacán, onde seu santuário recebe oferendas de diversos setores sociais. Santa Muerte, representada como uma caveira, é outro ícone associado ao narcotráfico, simbolizando proteção contra balas e traições.
A relação entre cartéis e santos não segue uma doutrina religiosa, mas é moldada por contextos culturais e territoriais. O Cartel de Sinaloa, por exemplo, é historicamente associado a Jesús Malverde, enquanto o CJNG frequentemente utiliza símbolos de proteção espiritual. A Igreja Católica e o Vaticano condenam a apropriação religiosa pelo narcotráfico, considerando o culto à Santa Muerte uma distorção da fé cristã.