O estupro em relacionamentos, como namoro ou casamento, é uma das formas de violência sexual mais desafiadoras para as vítimas reconhecerem. Especialistas destacam que essas relações muitas vezes são vistas como uma autorização permanente para o sexo, mesmo quando a mulher não consente.
Um relato de uma mulher, que optou por não se identificar, ilustra essa realidade. Ela passou 27 anos em um casamento em Goiás, onde foi submetida a relações sexuais contra sua vontade. Desde os primeiros meses, seu marido exigia que ela estivesse acordada à noite para preparar o jantar e, posteriormente, passou a exigir sexo mesmo em momentos de silêncio e desentendimentos.
A violência se intensificou durante a gravidez, culminando em um episódio em que, poucos dias após uma cesariana, ela foi forçada a ter relações sexuais. As práticas se tornaram dolorosas e causaram infecções recorrentes. A dependência financeira dificultava sua saída, pois ela dependia do marido até para necessidades básicas.
Após meses tentando se afastar, ela enfrentou um episódio de violência física quando o marido forçou a entrada em seu quarto e a estuprou. Embora colegas tenham notado marcas em seu corpo, ela não procurou a polícia imediatamente, temendo pelas consequências para seus filhos. Somente meses depois, com o apoio de amigas, ela conseguiu iniciar um processo judicial.
Dados da pesquisa
Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil
revelam que 21,1% das brasileiras relataram ter sido forçadas a manter relações sexuais contra a vontade ao longo da vida. A pesquisa, realizada em fevereiro de 2025, ouviu mais de 2.000 pessoas e incluiu episódios que não foram registrados formalmente.
A psicóloga Monik Monteiro ressalta que a dificuldade em reconhecer a violência está ligada à construção social da sexualidade feminina. Ela afirma que
ter relação sexual sem consentimento, sem vontade, sem desejo, é estupro
. A naturalização do sexo como uma obrigação pode levar mulheres a permanecerem em relações abusivas.
A promotora de Justiça Fabíola Sucasas destaca que, historicamente, as mulheres foram vistas como tendo uma obrigação sexual dentro do casamento. No campo jurídico, o estupro marital é tratado como estupro, e a relação entre agressor e vítima pode agravar a pena.
A juíza Tatiane Moreira Lima, que atua em casos de violência doméstica, afirma que o consentimento deve ser presente durante todo o ato sexual. A ausência de reação não implica consentimento, e a mudança de relato por parte da vítima deve ser analisada dentro do contexto em que ocorreu.
Fonte: Noticiasaominuto