A experiência de rejeição em aplicativos de namoro é comum entre homens gays que se consideram afeminados. Matheus Daipre, de 28 anos, relata que frequentemente é bloqueado após enviar áudios, uma situação que reflete a pressão para se conformar a padrões de masculinidade.
Antes de se assumir, Matheus tentava controlar seus gestos e sua dança para parecer mais masculino. Mesmo após se declarar gay, ele sentiu a necessidade de se adaptar para atrair outros homens, afirmando:
Já tentei fingir uma masculinidade para ver se a pessoa se atrai um pouco mais por mim
.
Pesquisas acadêmicas, como a dissertação de mestrado de João Carvalho de Souza Junior, abordam a valorização da masculinidade nas interações entre homens gays. Ele compartilha que, para criar um perfil atraente no Grindr, sentiu-se obrigado a apresentar uma imagem que se alinhasse a ideais sociais de masculinidade.
O psiquiatra Adilon Harley Machado explica que a construção da masculinidade começa na infância, onde meninos aprendem a se distanciar do que é considerado feminino. Essa dinâmica influencia não apenas comportamentos, mas também os desejos e preferências sexuais entre homens gays.
Em sua pesquisa, Souza Junior observa que características como masculinidade, riqueza e aparência física são valorizadas em ambientes online. Um homem de 61 anos, que preferiu permanecer anônimo, expressa sua busca por homens masculinos, afirmando que não deseja traços ou gestos considerados femininos.
Machado destaca que homens gays afeminados revelam aspectos que a masculinidade hegemônica tenta ocultar. A escritora Letícia Lanz acrescenta que a desvalorização de traços femininos está enraizada na misoginia, embora reconheça que preferências por masculinidade não sejam necessariamente discriminatórias.
A psicóloga Noemi Alves do Carmo Machado alerta que tentar se moldar para ser aceito pode dificultar a formação de uma identidade positiva. Ela enfatiza que pertencer a um grupo deve permitir a expressão plena do eu, sem fragmentação.
Experiências de rejeição podem gerar hipervigilância, onde a pessoa se sente constantemente em busca de aceitação. Matheus, ao perceber que homens mais másculos atraem mais atenção, afirma que sua prioridade mudou:
Não me importo mais se estão me olhando. Eu me curto e gosto de estar bem para mim mesmo.
Fonte: Noticiasaominuto