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Cenário Político: A Ampliação da Direita nas Eleições de 2026

A direita ampliou espaço no mapa dos governos estaduais brasileiros desde as eleições de 2022, mas esse movimento não ocorreu apenas pela eleição de novos governadores identificados com esse campo político. Renúncias,.....
Foto: Reprodução / Polêmica Paraíba

A direita ampliou espaço no mapa dos governos estaduais brasileiros desde as eleições de 2022, mas esse movimento não ocorreu apenas pela eleição de novos governadores identificados com esse campo político. Renúncias, mudanças de partido, sucessões de vice-governadores e novas alianças também alteraram a composição dos Executivos estaduais ao longo do atual ciclo eleitoral.

Para o cientista político Lúcio Flávio, a presença de forças de direita e centro-direita nos estados não é um fenômeno restrito aos últimos anos. Segundo ele, ao longo da história da República, os governos estaduais foram majoritariamente ocupados por grupos desse espectro político.

Ao longo da história republicana do Brasil, houve uma prevalência de governos de centro-direita e de direita em todos os estados. Os governos de esquerda, de perfil mais popular, foram exceção — disse.

Na avaliação de Lúcio, um dos fatores que ajudam a explicar esse cenário é a relação entre poder econômico e poder político.

Quem detêm o poder econômico detêm, inegavelmente, o poder político. E, consequentemente, quem controla o poder político reforça o poder econômico — afirmou.

Um levantamento publicado pela Fundação Konrad Adenauer, em novembro de 2025, já apontava a predominância da direita nos governos estaduais. O estudo, elaborado a partir de uma análise de Ciência Política, identificava 17 estados governados pela direita, sete pela esquerda e três pelo centro.

Naquele momento, o PSD era a legenda com maior número de governos estaduais, com cinco governadores, seguido por PT e União Brasil, com quatro cada. O PL tinha dois governadores. A classificação ideológica utilizada no levantamento colocava principalmente PSD, PL, PP e Republicanos no campo da direita; PT e PSB na esquerda; e MDB no centro.

O estudo também identificava diferenças regionais. A direita predominava no Sul, no Norte e em boa parte do Centro-Oeste e do Sudeste, enquanto o Nordeste apresentava maior presença de candidaturas de esquerda nas pesquisas analisadas.

Esse levantamento, no entanto, deve ser entendido como uma fotografia de novembro de 2025, e não como o retrato definitivo das eleições de 2026. Desde então, ocorreram mudanças partidárias e sucessões nos governos estaduais.

Mudanças nos partidos

Em abril de 2026, um levantamento da Folha de S.Paulo mostrou que as renúncias de governadores e as migrações partidárias alteraram a correlação de forças entre as legendas.

O PSD passou a ter seis governadores, enquanto PP e MDB passaram de dois para quatro. O PT permaneceu com quatro governos estaduais. O PSB, por outro lado, deixou os governos da Paraíba e do Espírito Santo após as renúncias dos titulares.

A movimentação fez com que legendas classificadas como de direita ou centro-direita ampliassem sua presença nos Executivos estaduais, embora isso não signifique que todos os políticos filiados a esses partidos possam ser classificados individualmente da mesma maneira.

A própria trajetória de Lucas Ribeiro, na Paraíba, ajuda a mostrar essa diferença. O governador disputa a reeleição pelo PP, mas sua candidatura reúne partidos de diferentes campos políticos, incluindo o PT. Portanto, a filiação partidária, isoladamente, não é suficiente para definir a posição ideológica de um candidato.

Lúcio Flávio destaca justamente a força de fatores que vão além da legenda. Segundo ele, a preferência por candidaturas de direita também está relacionada ao perfil conservador de parte da sociedade brasileira.

O Brasil tem uma cultura política conservadora que prejudica as candidaturas mais à esquerda — declarou.

Na avaliação do cientista político, esse comportamento não se limita à população de maior renda. Ele afirma que setores das classes baixa e média também costumam aderir a candidaturas de direita, em parte pela identificação com valores conservadores.

Economia e valores conservadores

Para Lúcio, dois fatores ajudam a explicar a força eleitoral da direita: o poder econômico e o conservadorismo social.

O primeiro estaria relacionado à estrutura de financiamento das campanhas. Segundo ele, candidaturas de direita costumam contar com maior disponibilidade de recursos partidários e eleitorais, enquanto partidos de esquerda teriam mais dificuldades para financiar disputas caras. O segundo fator está ligado a temas de costumes, como a defesa de um modelo de família tradicional, a oposição ao aborto e a descriminalização da maconha.

Na avaliação dele, essas pautas são utilizadas politicamente por candidatos de direita para estabelecer uma conexão com setores conservadores do eleitorado.

São bandeiras empunhadas eficazmente pelas candidaturas de direita, e isso tem dado uma enorme vantagem diante das candidaturas de esquerda — declarou.

Outro marco apontado por Lúcio Flávio é a eleição presidencial de 2018. Para ele, a vitória de Jair Bolsonaro naquele ano contribuiu para uma mudança no ambiente político, principalmente no Sul e no Sudeste.

A partir de 2018, tivemos uma onda de direitização, principalmente nos estados do Sul e Sudeste.

O movimento, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme em todo o país. Nas eleições de 2022, partidos de esquerda mantiveram força especialmente no Nordeste. O PT elegeu governadores na Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, enquanto o PSB venceu na Paraíba e no Espírito Santo.

Mudança na esquerda

Na avaliação do cientista político, o PT chega a 2026 em uma posição diferente daquela observada em ciclos eleitorais anteriores. Segundo ele, em diversos estados o partido optou por não lançar candidaturas próprias ao governo e priorizou alianças com legendas de centro para fortalecer o projeto nacional de Lula. Essa estratégia ajuda a explicar por que o mapa eleitoral de 2026 não pode ser lido apenas pela quantidade de candidatos de direita e esquerda.

Nas eleições de 2026, o PT demonstrou fragilidade política e, na maioria dos estados, optou por não lançar candidaturas e formar alianças mais ao centro do espectro político. Isso ocorreu para tentar garantir a vitória de Lula na disputa presidencial — afirmou Lúcio Flávio.

Um levantamento do SBT News publicado em agosto mostra justamente essa complexidade. O PSD aparece como aliado da federação formada por PT, PCdoB e PV em dez disputas estaduais. Em outros estados, porém, partidos de centro se aproximam de candidaturas ligadas ao PL. O mesmo levantamento aponta que União Brasil, PP e Republicanos ocupam uma posição estratégica nas alianças estaduais, enquanto MDB e PSD apresentam maior variedade de acordos.

Direita e centro

O cenário atual mostra, portanto, duas movimentações simultâneas: de um lado, a manutenção de uma presença significativa da direita nos governos estaduais; de outro, o fortalecimento do centro como peça importante para a construção das alianças.

O levantamento da Konrad Adenauer já identificava, no fim de 2025, a direita no comando de 17 estados. Já a movimentação partidária registrada em 2026 ampliou a presença de legendas de centro-direita nos Executivos estaduais.

Ao mesmo tempo, o cenário de alianças mostra que partidos como PSD e MDB podem estar próximos do PT em determinado estado e de candidaturas de direita em outro. Isso impede que a composição das chapas seja interpretada exclusivamente a partir da posição nacional de cada legenda.

O que pode mudar nos estados

Para o cientista político, uma presença maior de governos identificados com a direita pode ter consequências sobre as políticas públicas, principalmente nas áreas relacionadas à inclusão social e aos direitos de grupos historicamente vulneráveis.

Na avaliação de Lúcio, governos de direita tendem a adotar posições mais conservadoras em relação a indígenas, população negra, pessoas LGBTQIA+ e mulheres. Ele também afirma que esses governos podem reduzir investimentos em políticas de inclusão e priorizar medidas voltadas aos setores economicamente mais fortes.

A eleição de 2026 também ainda está em aberto. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, e o segundo turno, onde houver necessidade, está marcado para 25 de outubro.

Assim, a comparação entre 2022 e 2026 mostra um cenário em que a direita mantém presença expressiva e ampliou espaço em parte dos governos estaduais, enquanto a esquerda preserva redutos importantes e o centro se tornou fundamental para a construção das alianças eleitorais.

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