Um novo estudo revela que aproximadamente metade dos estudantes brasileiros do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio não reconhece a presença de debates sobre desigualdade racial nas salas de aula. Isso ocorre mesmo com a existência de legislações que exigem o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas.
Os dados são parte do levantamento intitulado
Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023
, realizado por pesquisadores do Cebrap, Instituto Alana e Geledés. O estudo também reflete a percepção de famílias que consideram o debate racial ainda escasso no ambiente escolar.
Karina Berardo, advogada e mãe de dois filhos negros, mencionou que um trabalho escolar de sua filha de 15 anos, em Brasília, destacou a contribuição da cultura negra na formação do Brasil, em vez de se concentrar apenas na escravidão. Ela observa que, embora tenha havido uma ampliação do tema no ensino médio, ainda é raro.
A pesquisa também revela um descompasso entre as afirmações dos professores e a percepção dos alunos. Enquanto 81,6% dos professores do ensino fundamental e 71,6% dos do ensino médio afirmam tratar frequentemente das desigualdades raciais, menos da metade dos alunos reconhece esse debate nas aulas. No ensino fundamental, apenas 46,6% dos alunos percebem que a maioria ou todos os professores abordam o tema, enquanto no ensino médio esse número é de 46,8%.
Flávia Rios, socióloga e professora da USP, destaca que, apesar dos avanços legislativos nos últimos 20 anos, a aplicação dessas leis ainda é desigual. Ela afirma que a implementação das políticas depende muitas vezes de iniciativas isoladas de secretarias de educação ou do Ministério da Educação.
Os dados também mostram que a percepção de ausência do debate racial é mais acentuada entre estudantes da rede privada, com 60,8% afirmando não reconhecer discussões sobre desigualdade racial. Na rede pública, os índices são de 51,4% no ensino fundamental e 51,9% no ensino médio. Alunos brancos são os que mais afirmam não perceber o tema nas aulas.
Eliane Firmino, pesquisadora do Cebrap, ressalta que, embora a legislação exista, enfrenta dificuldades práticas para sua efetiva aplicação. Ela argumenta que a educação antirracista deve ser vista como uma formação cidadã para todos os estudantes, não apenas para os negros.
Pesquisadores sugerem a necessidade de maior fiscalização das políticas educacionais, formação continuada de professores e aumento da diversidade racial no corpo docente. Suelaine Carneiro, coordenadora do Instituto Geledés, enfatiza a falta de ações estruturadas para garantir o cumprimento das leis e a importância de envolver docentes não negros nas discussões sobre relações étnico-raciais.
O estudo recomenda um diálogo mais amplo entre escolas, famílias e estudantes para combater o racismo de forma contínua, e não apenas em datas específicas. Juliana Couto, servidora pública e mãe de duas meninas, observa que, embora tenha havido mudanças em comparação com sua infância, os avanços ainda são lentos.