A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou por uma atualização que altera significativamente a abordagem das empresas em relação à saúde mental no ambiente de trabalho. A nova regra, estabelecida pela Portaria MTE nº 1.419/2024, determina que as organizações incluam fatores relacionados à saúde mental no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Com essa mudança, os empregadores são obrigados a considerar questões como sobrecarga de trabalho, metas inatingíveis, assédio, falta de apoio da liderança, isolamento e comunicação deficiente. O foco da norma não é avaliar a saúde mental de cada trabalhador, mas sim identificar condições organizacionais que podem levar ao adoecimento.
A psicóloga Denise Milk, especialista em saúde mental no trabalho, destaca que essa atualização transforma a percepção sobre o tema nas empresas.
A saúde mental deixa de ser vista apenas como uma questão individual e passa a ser compreendida também como responsabilidade organizacional
, afirma. Ela ressalta que, por muito tempo, o adoecimento emocional foi considerado uma fragilidade pessoal, mas agora as empresas devem observar fatores do ambiente de trabalho que podem contribuir para problemas como ansiedade crônica e burnout.
A NR-1 exige que as empresas identifiquem perigos, avaliem e classifiquem riscos, implementem medidas de prevenção e documentem todo o processo. Isso inclui a elaboração de um inventário de riscos e um plano de ação. Medidas como revisão de metas, organização das jornadas de trabalho e melhoria da comunicação interna são algumas das ações que podem ser adotadas.
Gustavo Aquino Queiroz, especialista em Recursos Humanos, aponta que a maior dificuldade foi mudar a cultura interna da empresa.
Foi necessário conscientizar lideranças e equipes de que fatores como pressão excessiva e desgaste emocional impactam diretamente a saúde e a segurança do trabalhador
, explica.
Ambientes de trabalho que impõem cobranças constantes e criam um clima de medo podem gerar sinais de alerta, como irritabilidade, fadiga persistente e crises de ansiedade. Denise Milk observa que o problema não reside na existência de metas, mas na forma como são estabelecidas e cobradas.
Empresas emocionalmente saudáveis não são aquelas sem pressão, mas aquelas que conseguem manter resultados sem transformar o sofrimento em método de gestão
, afirma.
A norma também se aplica a modelos de trabalho remoto, híbrido e teletrabalho, que podem apresentar riscos como isolamento e dificuldade de desconexão. Na experiência de Gustavo, a empresa revisou processos internos e melhorou a comunicação, o que resultou em um ambiente mais aberto ao diálogo e valorização dos colaboradores.
A fiscalização da NR-1 não implica que empresas serão punidas automaticamente por casos de ansiedade ou burnout. O essencial é que as organizações demonstrem que estão gerenciando os riscos relacionados ao trabalho, ouvindo os trabalhadores e acompanhando os resultados das medidas implementadas. Essa mudança insere a saúde mental na lógica formal de segurança do trabalho, exigindo uma abordagem contínua e responsável.