Sobrenomes conhecidos ainda ocupam espaço nas disputas eleitorais da Paraíba e reforçam um fenômeno que atravessa gerações: a permanência de famílias tradicionais nos centros de poder. Filhos, esposas, sobrinhos e netos de lideranças políticas assumem cargos públicos em prefeituras, câmaras municipais, Assembleia Legislativa e Congresso Nacional.
A relação entre família e poder político remonta ao período colonial brasileiro. Grandes proprietários de terra concentravam riqueza, influência econômica e autoridade social, formando estruturas familiares que atravessaram gerações e se consolidaram como núcleos de poder regional.
O modelo foi analisado por intelectuais como o sociólogo Gilberto Freyre, que apontava a família patriarcal como uma das bases da organização social brasileira. Nesse sistema, o chefe da família exercia autoridade não apenas dentro de casa, mas também sobre a vida econômica, social e política das regiões sob sua influência.
Ao longo do tempo, essas estruturas se adaptaram às transformações políticas do país, e passou pelo coronelismo, pela consolidação das oligarquias estaduais e chegou às disputas eleitorais contemporâneas.
Na região Nordeste, o coronelismo se destacou pela dominação política baseada no poder de grandes proprietários de terras, conhecidos como coronéis. Esse sistema foi estruturado durante a Primeira República, de 1889 a 1930, e se baseava no controle de terras, violência privada dos jagunços e no clientelismo, que substituía os direitos por favores e garantia o voto do cabresto.
Embora o cenário político tenha mudado, a força dos sobrenomes tradicionais continua presente em diversas regiões do Brasil, especialmente em estados menores e fortemente regionalizados, como a Paraíba.
Para o sociólogo Matheus Firmino, a permanência dessas famílias está diretamente ligada à formação histórica da sociedade brasileira e à concentração de poder econômico e político ao longo das gerações.
Considerando as famílias mais tradicionais, precisamos compreender que elas existem há bastante tempo, um processo de construção, elaboração de manutenção e permanência dessas famílias, de um poder através de estruturas políticas, sociais e culturais que são elaboradas por elas mesmas — afirmou.
Segundo o sociólogo, a Paraíba, por ser um estado relativamente pequeno, facilita a atuação dessas famílias tradicionais nas cidades e bases eleitorais. Elas conseguem manter proximidade com prefeitos, vereadores, lideranças locais e eleitores. Para ele, famílias que têm dinheiro, empresas, terras ou influência econômica usam a política para preservar esses interesses.
Essas famílias precisam se manter na política para manter também a sua capacidade econômica, geralmente terceirizando as atividades econômicas de uma família e atuando na política para manter boas relações nesse campo e também construindo benefícios que ajudem também economicamente essas famílias — disse Matheus Firmino.
Ao mesmo tempo, permanecer na política ajuda esses grupos a continuar fortes economicamente. Além disso, outros fatores são considerados fortes para manter a influência dessas famílias, como as emendas parlamentares que permitem direcionar recursos públicos para cidades e bases eleitorais; instituições religiosas e redes históricas de influência social.
Na prática, essa lógica se reproduz diretamente no cenário eleitoral paraibano de 2026. Diversos nomes colocados como pré-candidatos ou possíveis protagonistas da disputa estadual pertencem a grupos familiar que ocupam espaços de poder há décadas e mantêm influência em diferentes regiões do estado, apenas um não se encaixa na chamada “oligarquia”.
Cícero Lucena (MDB) e Mersinho Lucena (PSD): pai e filho integram o grupo político da família Lucena, com atuação histórica em João Pessoa e na política estadual. Ambos os políticos são sobrinhos de Haroldo Lucena, ex-vice prefeito de João Pessoa que também presidiu o diretório do MDB na Paraíba; e Humberto Lucena, ex-deputado estadual e federal, ex-senador, e presidiu o Senado Federal na década de 1990. Cícero Lucena é atualmente pré-candidato ao governo da Paraíba e Mersinho Lucena é deputado federal, e está em busca da reeleição na Câmara dos Deputados.
Lucas Ribeiro (PP): o vice-governador da Paraíba irá disputar a reeleição. É filho da senadora Daniella Ribeiro; neto do ex-governador, ex-senador e líder do Partido Progressistas na Paraíba Enivaldo Ribeiro; neto da ex-prefeita de Pilar, Virgínia Veloso Ribeiro; e sobrinho do deputado federal e ex-ministro Aguinaldo Ribeiro.
Hugo Motta e Olívia Motta (Republicanos): pertencem à família Motta, grupo político com forte influência no Sertão paraibano. São filhos de Nabor Wanderley, atual prefeito de Patos; netos de Francisca Motta, deputada estadual na Paraíba e ex-prefeita de Patos. Atualmente, Hugo é deputado federal e exerce o cargo de Presidente da Câmara dos Deputados. Já Olívia, é pré-candidata a deputada estadual na Paraíba.
Wilson Filho (Republicanos): atual secretário de Estado da Educação da Paraíba, ex-deputado federal e pré-candidato à Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), Wilson é filho do ex-senador e atual deputado federal Wilson Santiago.
Efraim Filho (PL): atualmente é senador mas irá disputar as eleições para o governo da Paraíba. É filho do ex-senador Efraim Morais e sobrinho do deputado George Morais.
Diogo Cunha Lima: filho do ex-senador Cássio Cunha Lima e neto do ex-governador Ronaldo Cunha Lima, Diogo é pré-candidato a governador na chapa de Cícero Lucena.
Veneziano Vital do Rêgo (MDB): pré-candidato à reeleição ao Senado Federal pela Paraíba, é filho do ex-deputado federal Antônio Vital do Rêgo e da ex-deputada federal e ex-senadora federal Nilda Gondim. Também é irmão do ex-senador e atual Ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo Filho.
Gervásio Maia (PSB): pré-candidato à Câmara dos Deputados, é filho do ex-deputado estadual e ex-presidente da ALPB Gervásio Bonavides Mariz Maia; neto do ex-governador da Paraíba, ex- ministro de Minas e Energia e ex-deputado federal João Agripino Filho; sobrinho do ex-deputado federal João Agripino Neto.
Ruy Carneiro (Podemos): o deputado federal é pré-candidato à Câmara dos Deputados. Sobrinho-neto do ex-senador Ruy Carneiro e do ex-deputado federal José Janduhy Carneiro, também é primo do deputado estadual Janduhy Carneiro.
Olímpio Rocha (PSOL): apesar de possuir relações políticas com o seu pai Márcio Rocha, ex-vereador de Campina Grande, não é identificado como integrante de uma oligarquia familiar tradicional da política paraibana. Olímpio é pré-candidato ao governo da Paraíba.
Firmino também argumenta que existe um sistema estrutural que contribui para a permanência dessas pessoas no poder, e que adotar um modelo em que o eleitor vote mais em partidos e programas políticos do que em indivíduos específicos poderia diminuir o peso do sobrenome e da fama familiar.
Porém, a personalificação da liderança, ou seja, quando o eleitor prefere votar na figura central do candidato do que em projetos partidários ou ideológicos, impede o fim desse fenômeno.
Em muitas cidades pequenas, a política ainda está profundamente vinculada às relações de proximidade e dependência econômica. E consequentemente, seguem sendo os principais motores da economia local, em que concentra boa parte dos empregos e da circulação de renda.
Segundo o sociólogo, quando duas famílias tradicionais disputam o poder em uma cidade durante décadas, elas concentram influência sobre os principais espaços da administração pública, como prefeitura, Câmara Municipal, secretarias e estruturas políticas regionais.
Em muitos municípios do interior, onde a economia depende fortemente do funcionalismo público e dos serviços ligados à gestão municipal, cria-se uma relação de dependência entre parte da população e esses grupos políticos. Nesse contexto, o eleitor passa a associar determinadas famílias à capacidade de garantir empregos, facilitar acessos e resolver demandas cotidianas junto ao poder público.
O pesquisador também destaca que essa lógica se fortalece através da chamada “herança política”. Quando uma liderança perde força, envelhece ou fica impedida de disputar eleições, outro integrante da família assume o espaço político, como filhos, esposas, sobrinhos ou aliados próximos.
Essas pessoas têm uma relação política muito mais vinculada ao nome desta família do que necessariamente a uma perspectiva ideológica da política. As famílias fazem de tudo para que os herdeiros, os mais jovens, acabem substituindo os mais velhos quando não tem mais condições jurídicas de estar na gestão, na câmara, na Assembleia Legislativa ou no Congresso — destacou.
Dessa forma, o sobrenome continua funcionando como capital eleitoral. Na avaliação dele, o peso das famílias muitas vezes supera a identidade partidária, já que os políticos conseguem migrar entre legendas sem perder sua base de apoio, sustentados mais pela influência familiar e pelas relações locais do que por projetos ideológicos ou programas partidários.
A permanência dessas famílias no poder também está ligada à própria formação histórica do Brasil. Desde o período colonial, grandes extensões de terra foram concentradas nas mãos de poucas famílias, que passaram a controlar não apenas a produção econômica, mas também as estruturas de poder local.
Com o passar das gerações, essas propriedades e a influência política foram sendo herdadas entre filhos e descendentes, consolidando grupos familiares com forte presença regional. Enquanto isso, populações mais pobres, trabalhadores e pessoas escravizadas ficaram historicamente excluídas do acesso à terra e aos espaços de decisão política.
Se a gente considerar, por exemplo, que a maior parte da representatividade nos parlamentos brasileiros, em todas as esferas municipal, estadual e federal, a maioria dos parlamentares advém ainda dessas famílias mais tradicionais. Claro que a bancada urbana dessas famílias, ainda menor do que a bancada rural, por exemplo, é precisa. É fácil a gente compreender o quanto essas famílias, estatisticamente, permanecem nos espaços de poder, tanto no poder legislativo, no executivo e também no judiciário — disse Matheus.
Para o sociólogo, existe hoje um sentimento crescente de desgaste da população em relação às famílias tradicionais que historicamente ocupam os espaços de poder na Paraíba. Segundo ele, muitos eleitores já identificam que a alternância política no estado acontece de forma concentrada entre os mesmos grupos familiares, que em determinados momentos aparecem como adversários, mas em outros estabelecem alianças.
Esse cansaço, afirma, pode ser percebido no aumento da abstenção eleitoral, além dos votos brancos e nulos, refletindo uma parcela da sociedade que não se sente representada e que passou a enxergar o processo eleitoral com descrença. Na avaliação do pesquisador, parte da população já não vê nas eleições uma possibilidade concreta de transformação política ou renovação das estruturas de poder.
É um jogo em que, por mais que haja um descontentamento, o sistema eleitoral e a própria estrutura socioeconômica da Paraíba e do Nordeste, de um modo geral, e do Brasil também, ela oferece os mecanismos necessários para a autoperpetuação dessas elites políticas — declarou.
Apesar disso, essas famílias continuam competitivas porque ainda existe uma forte dependência social, econômica e política em torno dessas estruturas. Ainda hoje, muitos eleitores mantêm o voto motivados pelo pragmatismo regional, buscando recursos, emendas parlamentares e benefícios para os municípios, enquanto outros seguem influenciados pela força do sobrenome e pela personalização das lideranças políticas.
A permanência dessas elites na política paraibana ao longo de décadas não é resultado apenas da atuação individual dos grupos políticos, mas de um sistema social e econômico que favorece sua reprodução no poder.
Fonte: Polemicaparaiba