Segundo o médico Henrique Gonçalves Dantas de Medeiros, o curso de Medicina enfrenta dificuldades para preencher cargos de liderança, decorrente das exigências de carga horária e da formação profissional
Em primeira mão ao programa Olho Vivo, da TV e Rede Diário do Sertão, nesta quinta-feira (21), o professor e médico Henrique Gonçalves Dantas de Medeiros, recém-eleito coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), campus Cajazeiras, explicou os trâmites do processo eleitoral acadêmico e trouxe à tona reflexões críticas sobre a legislação que rege a escolha de gestores para cursos de saúde.
Durante a entrevista, o coordenador detalhou que a escolha da liderança não ocorre de forma isolada, mas sim por meio de uma composição colegiada normatizada pela própria instituição.
Na verdade, a gente faz uma eleição para a unidade colegiada da Unidade Acadêmica de Ciências da Vida, que é onde está localizado o curso de Medicina aqui de Cajazeiras. Então a gente escolhe uma chapa em que você tem o candidato à coordenação administrativa da unidade acadêmica (UACV), um candidato a coordenador de pesquisa e extensão da UACV, e o coordenador do curso de graduação em Medicina, que seria o meu caso
.
Henrique pontuou que o pleito, realizado a cada dois anos, deveria ter ocorrido no ano anterior, mas enfrentou atrasos devido a incompatibilidades de regime de trabalho de um dos membros da chapa anterior com as normas internas da universidade, que exigem dedicação exclusiva (regime T-40). Resolvida a questão, um novo processo foi convocado, resultando em uma chapa única eleita de maneira tranquila.
Segundo o médico, o curso de Medicina enfrenta dificuldades para preencher cargos de liderança, decorrente das exigências de carga horária e da formação profissional. Medeiros revelou ser o único médico do campus apto a assumir a função no momento:
A gente tem uma dificuldade aqui no curso de Medicina de Cajazeiras porque a gente não tem médicos com carga horária de 40 horas e dedicação exclusiva para assumir esse tipo de função. O único médico com carga horária T-40 DE sou eu. Por isso acaba que eu era o único que estava habilitado a assumir essa função agora. Não estava bem nos meus planos, eu tinha outros planos… eu retornei recentemente do meu doutorado e tinha planos de investir um pouco mais no campo da pesquisa, mas diante da necessidade do curso, acabei assumindo essa responsabilidade agora — disse.
Coordenador no curso de Medicina de Cajazeiras. Foto: Diário do Sertão
Mesmo sendo beneficiado pela legislação vigente, que restringe a coordenação de cursos de Medicina exclusivamente a graduados na área, Henrique Gonçalves expressou uma visão crítica e progressista sobre o tema. Ele defendeu que a formação em saúde prepara o profissional para a assistência técnica, mas não necessariamente para a docência ou gestão acadêmica, competências que podem ser desenvolvidas por outros profissionais da saúde.
Eu particularmente tenho uma crítica a essa legislação que aprovaram, de que apenas o médico poderia ser coordenador de curso de graduação. Mesmo eu sendo médico, eu tenho uma crítica a essa legislação. Obviamente que a gente tem que responder à legislação, mas isso não impede que a gente faça crítica a ela. Eu entendo que quando a gente se forma em qualquer curso na área da saúde, a gente é formado com as capacidades técnico-assistenciais que são requeridas para a gente trabalhar no exercício da assistência médica, da assistência do fisioterapeuta, da enfermagem. Mas a gente não tem uma formação em nossa graduação para o exercício da docência. A docência a gente vai aprender praticamente quando a gente se torna professor — destacou na entrevista.
Universidade Federal de Campina Grande – Campus Cajazeiras
O novo coordenador fez questão de registrar um agradecimento público à sua antecessora, a professora Fabíola Jundurian, que é médica veterinária, mas cuja gestão foi classificada por ele como “muito exitosa” e qualificada.
Eu acho que a professora Fabíola fez esse exercício muito bem. Ela frequentava esses espaços, se apropriou desses instrumentos da educação médica, inclusive seu doutorado foi na área. E eu acho que isso se refletiu na qualidade com que ela conduziu o curso. Então eu queria fazer aqui esse reconhecimento público ao trabalho da professora Fabíola porque eu acho que houve muita celeuma pelo fato de ela não ser médica, como se isso fosse o elemento determinante.
O Sindicato dos Médicos da Paraíba (SIMED-PB) e o Conselho Regional de Medicina (CRM-PB) exigiram judicialmente a regularização da coordenação do curso de Medicina da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) no Campus de Cajazeiras uma vez que a atual coordenação do curso estava em desacordo com a Lei do Ato Médico, que exige que o coordenador seja graduado em Medicina.
A denúncia ao SIMED-PB foi feita pela Dra. Vanessa Rolim, médica e professora sindicalizada de Cajazeiras. O curso de Medicina da UFCG de Cajazeiras estava sendo coordenado de forma ilegal há, pelo menos, dez anos. Isso porque, desde 2014 que o curso não tem coordenador(a) que seja graduado(a) em Medicina, como determina a Lei Federal Nº 12.842/2013, a Lei do Ato Médico. Embora tenha sido eleita no processo de eleição da universidade, a então coordenadora, professora doutora Fabíola Jundurian Bolonha, é formada em Medicina Veterinária.
Fonte: Diariodosertao