Um estudo do Centro Internacional de Equidade em Saúde, da Universidade Federal de Pelotas, aponta que, embora quase todas as gestantes brasileiras realizem a primeira consulta pré-natal, 20% abandonam o acompanhamento durante a gravidez. Os principais fatores para esse abandono incluem problemas de acessibilidade e a falta de recursos financeiros.
Os dados revelam uma dualidade: o Brasil alcançou quase a universalização da primeira consulta, mas a continuidade do pré-natal é insatisfatória, especialmente entre populações vulneráveis. Os pesquisadores destacam que os avanços na saúde tendem a beneficiar primeiro as camadas mais favorecidas da sociedade.
Em 2024, o Ministério da Saúde lançou a Rede Alyne, com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil e materna, aumentando o número mínimo de consultas pré-natal de seis para sete. O estudo, liderado pela pesquisadora Luiza Eunice Sá da Silva, utilizou dados de 2023 do Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (Sinasc) para avaliar o cumprimento dessa meta.
Os resultados mostram que a cobertura para a primeira consulta é de 99%, mas esse percentual cai para 79% na última consulta. A escolaridade das gestantes é um fator determinante: 86,5% das mulheres com 12 anos ou mais de estudo completam o ciclo, enquanto apenas 44% das que não têm escolaridade conseguem o mesmo.
As disparidades raciais também são evidentes, com apenas 51% das mulheres indígenas completando o pré-natal, em comparação a 84% das brancas. As mulheres pretas e pardas apresentam índices de 76% e 75%, respectivamente. Entre as indígenas, a queda no acompanhamento entre a primeira e a sétima consulta é de 46 pontos percentuais, muito superior aos 15,3 pontos das brancas.
As desigualdades se estendem a diferentes regiões e faixas etárias. O Norte do Brasil apresenta a menor cobertura para as sete consultas, com 63%, enquanto o Sul tem a melhor, com 85%. Entre gestantes menores de 20 anos, 68% completam o ciclo, em contraste com 83% das mulheres acima de 35 anos.
Luiza destaca que fatores específicos influenciam esses números, como o fato de muitas adolescentes descobrirem a gravidez tardiamente, o que dificulta a conclusão das sete consultas. As mulheres indígenas enfrentam desafios logísticos que dificultam o acesso aos serviços de saúde.
Evelyn Santos, da Umane, que apoiou a pesquisa, enfatiza a necessidade de estados e municípios identificarem suas deficiências. Ela sugere que o primeiro passo deve ser entender as barreiras e facilitadores em cada local, seguido pela implementação de estratégias como a vinculação do pré-natal ao hospital maternidade.
Cesar Victora, coautor do estudo, afirma que a melhoria na qualidade do cuidado deve ocorrer após a correção das desigualdades. Ele ressalta que as sete consultas não são um número arbitrário, mas essencial para monitorar a saúde da gestante e do feto, prevenindo complicações como infecções e diabetes gestacional.