Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) descobriu, há 11 anos, que a pele de tilápia é mais eficaz no tratamento de queimaduras do que terapias convencionais, como cremes e pomadas. A técnica gerou mais de 45 artigos e parcerias com instituições renomadas, incluindo o Instituto Butantan e a Fiocruz.
O coordenador da pesquisa, Edmar Maciel, explica que a descoberta se deu quando a professora Ana Paula Negreiros e sua equipe identificaram a alta concentração de colágeno tipo 1 na pele do peixe, essencial para a cicatrização. Dois produtos principais foram desenvolvidos: a pele conservada em glicerol e a pele liofilizada, ambas utilizadas como curativos.
A pele conservada requer refrigeração, enquanto a liofilizada pode ser armazenada em temperatura ambiente, o que reduz custos de produção e transporte. Apesar de seu reconhecimento no tratamento de queimaduras, a tecnologia também apresenta outras aplicações.
Com grande elasticidade e rica em colágeno, a pele de tilápia atua como um curativo biológico, sendo eficaz para queimaduras de segundo e terceiro grau. A cirurgiã plástica Irene Daher destaca que o curativo permanece aderido à queimadura, reduzindo dor e protegendo contra infecções, além de exigir menos trocas em comparação a tratamentos convencionais.
Além do uso em queimaduras, a tecnologia é aplicada na reconstrução vaginal e em cirurgias de redesignação sexual, estimulando a produção de tecido vaginal novo. Maciel menciona que mais de 300 pacientes já foram atendidos na Colômbia com esses procedimentos.
Na medicina veterinária, a pele de tilápia também é utilizada para tratar queimaduras e problemas na córnea de animais, com resultados positivos. A pesquisa se baseia na extração do colágeno da pele do peixe, permitindo o uso do material dentro do organismo.
Embora a tilápia não seja nativa do Brasil, sua ampla disseminação no país e a abundância de sua pele, que muitas vezes é descartada, tornam-na uma escolha viável para pesquisas. A resistência do peixe a doenças e sua rápida reprodução também são fatores favoráveis.
Atualmente, a técnica não está disponível em todos os hospitais públicos, mas um acordo firmado no final de 2025 pode mudar essa realidade. A transferência de tecnologia para a empresa Biotec permitirá a produção e comercialização da pele liofilizada, com a expectativa de que a tecnologia chegue à rede pública de saúde.